República Democrática do Congo oficializa surto de ebola provocado pela variante bundibugyo
A República Democrática do Congo oficializou, em 15 de maio, um surto de ebola da variante bundibugyo na província de Ituri. O vírus circulava desde fevereiro, com a maioria dos casos concentrada em Bunia. A confirmação laboratorial ocorreu três semanas após os primeiros sintomas de um profissional de saúde
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O governo da República Democrática do Congo oficializou, em 15 de maio, um surto de ebola provocado pela variante bundibugyo. Embora a declaração tenha ocorrido em maio, evidências genéticas e cronológicas indicam que o vírus circulava na região muito antes da notificação formal.
Cronologia da detecção e falhas na resposta
O primeiro caso identificado retrospectivamente foi o de um profissional de saúde em Mongbwalu, no nordeste da província de Ituri, que apresentou sintomas entre 24 e 25 de abril. O paciente faleceu em um centro médico em Bunia, capital da província, onde se concentram 80% dos casos registrados até o momento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) só foi notificada sobre a existência de uma doença com alta mortalidade na Zona de Saúde de Mongbwalu no dia 5 de maio. A confirmação laboratorial da variante bundibugyo ocorreu apenas em 15 de maio, por meio do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica, em Kinshasa.
O Africa CDC criticou a demora na resposta, destacando que o intervalo de três semanas entre os primeiros sintomas do profissional de saúde e a confirmação do diagnóstico revelou a baixa suspeita clínica local. Esse atraso teria facilitado a propagação geográfica do vírus antes que as medidas de contenção fossem implementadas.
Indícios de circulação precoce
Relatos de moradores de Mongbwalu e documentos da Cruz Vermelha da República Democrática do Congo apontam que mortes suspeitas, caracterizadas por febre alta e sangramentos em diversos orifícios do corpo, ocorriam desde o fim de abril. Um relatório da instituição menciona que, desde 30 de março de 2026, a população local já manifestava medo devido a uma série de óbitos com sintomas compatíveis com o ebola, como exaustão severa, tosse persistente, vômitos e coma.
Um evento específico é apontado como potencial estopim para o aumento de infecções: o funeral de um morador de Mongbwalu. O corpo teria sido colocado em um caixão adquirido em Bunia e posteriormente substituído por outro em Mongbwalu, expondo diversas pessoas ao contato direto com o cadáver e o objeto contaminado.
Origem e subnotificação
Análises de sequenciamento genético e estudos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) sugerem que a transmissão de um animal para um ser humano pode ter ocorrido entre meados e o fim de fevereiro. Mohamed Janabi, diretor regional da OMS para a África, confirmou que o surto provavelmente começou em fevereiro, mas que muitos casos iniciais foram diagnosticados erroneamente como malária ou tifo.
Janabi classificou a situação como catastrófica, revelando que, em um período de três meses, as autoridades tiveram acesso a apenas um terço dos pacientes, evidenciando uma grave lacuna na notificação de casos.
Monitoramento animal como alerta
A relação entre a mortalidade animal e surtos humanos é um ponto de atenção. Pesquisas do Instituto Pasteur, em Paris, indicam que, em epidemias anteriores no nordeste do Congo, houve relatos de alta mortalidade entre animais de criação antes da confirmação do vírus em humanos.
Um exemplo ocorreu em 2017, quando mortes em massa de porcos — inicialmente atribuídas à peste suína e chamadas localmente de ebola suíno — precederam a crise sanitária. O monitoramento de animais de criação é apontado como uma ferramenta capaz de fornecer sinais de alerta precoces, antecipando-se aos diagnósticos laboratoriais.