República Democrática do Congo registra surto de variante do ebola sem vacina ou tratamento aprovado
A província de Ituri, na República Democrática do Congo, e a Uganda registram um surto da variante Bundibugyo do ebola, com 488 casos e 86 mortes no país africano. A transmissão comunitária concentra-se em Mongbwalu, onde a falta de vacinas, insumos e conflitos armados dificultam o controle sanitário. A OMS lançou um plano de US$ 518 milhões para conter a propagação da doença
A província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo, enfrenta um surto da variante Bundibugyo do ebola, doença que se espalhou silenciosamente por semanas antes de ser detectada. O epicentro da crise está na zona de mineração de Mongbwalu, onde a transmissão comunitária ativa foi confirmada pelas autoridades sanitárias. Até a última sexta-feira (5), o país contabilizava 488 casos confirmados e 86 mortes, com um pico de 71 novos registros em apenas um dia, na quinta-feira anterior. A propagação do vírus também atingiu a Uganda, com 19 casos e dois óbitos confirmados.
A resposta médica é dificultada pela ausência de vacinas e tratamentos aprovados para essa variante específica, forçando as equipes a focarem apenas no controle dos sintomas. O Ministério da Saúde do Congo oficializou o surto em 15 de maio, mas o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou que a doença obteve vantagem inicial devido à incapacidade dos hospitais locais de testarem corretamente o vírus enquanto ele já circulava na região.
No Hospital Geral de Referência de Mongbwalu, o diretor médico Richard Lokudu e sua equipe operam com recursos mínimos e enfrentam a falta de insumos básicos, como botas, luvas, máscaras e medicamentos. Além da precariedade material, os profissionais de saúde trabalham sem a devida remuneração regular, sacrificando o descanso para atender um fluxo crescente de pacientes que chega inclusive durante a noite. A situação é agravada por um histórico de falta de investimentos no sistema de saúde local, resultando em uma deterioração estrutural prolongada.
O combate ao vírus enfrenta barreiras sociais e políticas. O ceticismo da população em relação à doença e o descumprimento de protocolos sanitários retardam o diagnóstico, como no caso de Asero Jeanne, que perdeu dois filhos por acreditar que os sintomas eram de malária e por ouvir relatos de que o hospital era fatal. A transmissão ocorre pelo contato próximo com fluidos corporais, como sangue, suor, fezes e vômito, e a resistência comunitária já resultou na morte de profissionais de saúde e equipes de resposta.
A logística de contenção é ainda mais complexa devido aos conflitos armados na região, envolvendo o governo congolês, militantes islâmicos e o grupo rebelde M23, que conta com apoio de Ruanda. A falta de meios de transporte impede que a equipe de Lokudu investigue todos os alertas de casos no campo, permitindo que a doença avance mais rápido que a capacidade de atendimento.
Para reverter o cenário, a OMS lançou um plano de US$ 518 milhões, condicionando o controle do ebola ao financiamento sustentável, ao compromisso político e à confiança das comunidades. Até o momento, o governo congolês registrou a recuperação de cinco pessoas desde a confirmação oficial do surto.