União Europeia é questionada por falta de transparência sobre consumo de recursos de data centers
A expansão de data centers na Europa para suportar a inteligência artificial enfrenta limitações de energia limpa e falta de transparência nos dados de consumo. Instalações que reportaram informações em 2025 registraram alta de 25% no gasto energético e 50% no uso de água. A Comissão Europeia é alvo de ação judicial por manter sigilosos os impactos ambientais do setor
A expansão acelerada de data centers na Europa, impulsionada pela corrida global pela inteligência artificial, enfrenta um impasse entre o crescimento tecnológico e a sustentabilidade ambiental. Enquanto a Espanha se consolida como um polo estratégico para o processamento de dados, a União Europeia é questionada pela falta de transparência sobre o impacto real dessas infraestruturas no consumo de recursos naturais.
O conflito entre IA e metas climáticas
A infraestrutura necessária para treinar e executar modelos de IA exige uma escala de computação sem precedentes. No continente europeu, alguns complexos já se aproximam da capacidade de 1000 MW, buscando equiparar-se ao volume de processamento dos Estados Unidos. No entanto, essa ambição colide com as metas ambientais da região.
Lex Coors, executivo da Digital Realty e presidente da EUDCA, afirmou que a meta de triplicar a capacidade de data centers nos próximos cinco anos, prevista por Ursula von der Leyen, é inviável sem o uso de combustíveis fósseis, já que as fontes de energia limpa são insuficientes para a demanda.
Opacidade nos dados de consumo
Desde 2024, a Diretiva de Eficiência Energética (EED) obriga as empresas do setor a reportarem anualmente o consumo de energia e água, além do uso de fontes renováveis. Apesar da norma, a Comissão Europeia e diversos governos nacionais têm mantido esses dados sob sigilo, alegando a proteção de interesses comerciais.
A coleta de informações tem sido ineficaz. A própria Comissão admitiu que apenas 36% dos data centers da UE enviaram os dados em 2024. Para 2025, embora menos empresas tenham reportado, houve um salto alarmante no consumo: as instalações que enviaram os dados registraram um aumento de 25% no gasto energético e 50% no consumo de água em relação ao ano anterior.
Contrastes regionais: Espanha e Irlanda
A distribuição desses complexos na Europa revela estratégias distintas:
- Irlanda: Em Grange Castle, a concentração de servidores de gigantes como Google, Amazon e Microsoft gerou saturação. Em 2021, o regulador energético proibiu novas conexões devido à alta demanda — medida revogada em 2024 sob rigorosas regras de autoconsumo. Atualmente, o setor consome 25% de toda a energia do país.
- Espanha: A região de Aragão tornou-se um destino preferencial devido à energia barata, disponibilidade de terrenos e agilidade governamental. A Amazon Web Services (AWS) já opera três centros no país e planeja expansões, enquanto a Microsoft e outras empresas como QTS Data Centers, Merlin Properties, ACS, Azora e Forestalia possuem projetos aprovados.
Batalhas judiciais por transparência
A resistência em divulgar os dados ambientais levou a coalizão de jornalistas Lighthouse Reports a acionar a justiça. A organização entrou com uma ação contra a Comissão Europeia baseada no Convenio de Aarhus, tratado internacional que garante o acesso público a informações ambientais.
A investigação revelou contradições governamentais. Enquanto o Ministério de Transição Ecológica da Espanha alegou que os dados eram enviados diretamente a Bruxelas, documentos mostram que outros países, como França e Itália, detêm as informações, embora muitas vezes as ocultem ou as publiquem de forma agregada para evitar a identificação das empresas.
Atualmente, apenas alguns países, como os Países Baixos, possuem portais de transparência. Mesmo assim, a ONG Leitmotiv aponta que a maioria das instalações e quase todas as empresas americanas permanecem ausentes dessas listas. A denúncia formal ao Comité de Cumprimento do Convenio de Aarhus argumenta que a UE viola princípios internacionais ao tratar o consumo de recursos naturais como segredo comercial.