Uso de medicamentos controlados cresce entre adolescentes chineses devido à pressão por desempenho acadêmico
Adolescentes na China utilizam medicamentos controlados adquiridos via internet para aliviar o estresse e a pressão acadêmica. O governo chinês restringiu a venda de fármacos e planeja expandir o apoio psicológico escolar e hospitalar até 2030
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O uso indevido de medicamentos controlados tornou-se um problema generalizado entre adolescentes na China, impulsionado por uma crise de saúde mental e pela pressão extrema por desempenho acadêmico. Jovens utilizam substâncias como remédios para tosse, analgésicos neuropáticos e fármacos para epilepsia e Parkinson para alcançar a chamada euforia farmacêutica, buscando alívio para a ansiedade e o estresse.
A facilidade de acesso é um fator determinante. Mesmo substâncias que exigem prescrição médica são adquiridas via internet a preços baixos; em alguns casos, 50 comprimidos custam menos de um dólar. O país, que é o maior produtor global de insumos farmacêuticos, enfrenta dificuldades para fiscalizar a venda online, já que os jovens utilizam codinomes para evitar a detecção das autoridades.
Pressão escolar e isolamento social
O fenômeno é particularmente forte em classes de elite, onde vigora um sistema de eliminação baseado em notas. Para muitos estudantes, o fracasso escolar é percebido como a perda de qualquer oportunidade de futuro. Esse cenário é agravado pelo isolamento social, com jornadas escolares que chegam a 10 horas diárias, limitando a formação de vínculos afetivos reais.
A dinâmica familiar também contribui para o quadro. Devido à antiga política do filho único, as expectativas dos pais recaem inteiramente sobre um único descendente. Somado a isso, a instabilidade econômica atual da China, que afeta a empregabilidade de cerca de 20% dos jovens, gera um clima de pessimismo que atinge tanto filhos quanto pais.
Riscos e respostas governamentais
O consumo abusivo dessas substâncias pode levar a quadros graves de alucinações, perda de coordenação, delírios e confusão mental. Há relatos de adolescentes que, em grupos de redes sociais, incentivam uns aos outros ao uso de doses excessivas e até à automutilação como forma de "sentir algo".
Em resposta, o governo chinês implementou medidas de controle:
- Restrição de vendas: Medicamentos para tosse foram reclassificados como psicotrópicos, dificultando a compra online.
- Fiscalização: Foram impostos controles mais rigorosos sobre a prescrição de novos fármacos que substituíram os anteriores no consumo juvenil.
- Apoio psicológico: O plano nacional para 2030 prevê a criação de salas de orientação em todas as escolas e a expansão de serviços psiquiátricos em hospitais de condados.
Desafios na saúde mental
Apesar de a China ter reduzido em 41% o número de novos consumidores de drogas ilegais entre menores de 35 anos, a dependência de remédios controlados revela uma lacuna assistencial. Um estudo de 2023 indicou que 95 milhões de pessoas no país sofrem de depressão, sendo mais de 30% menores de 18 anos.
A infraestrutura de atendimento ainda é insuficiente. Dados de 2020 apontam a existência de apenas 500 psiquiatras pediátricos qualificados em todo o território, concentrados majoritariamente em grandes centros como Pequim e Xangai. Especialistas defendem que a solução definitiva não reside apenas na proibição de vendas, mas no enfrentamento direto da crise de saúde mental e no acolhimento emocional dos jovens.