Brics manifesta preocupação com tensões no Oriente Médio e critica tarifas unilaterais no comércio global
Líderes do Brics publicaram declaração conjunta em Nova Delhi expressando preocupação com tensões no Oriente Médio e criticando tarifas comerciais unilaterais. O documento defende a reforma do Conselho de Segurança da ONU, o uso de moedas locais em pagamentos e a criação de um painel contra a desigualdade
Líderes e representantes de nações integrantes do Brics manifestaram, em declaração conjunta divulgada neste sábado (12), preocupação com a escalada de tensões no Oriente Médio e criticaram a adoção de tarifas unilaterais no comércio global. O encontro, realizado em Nova Delhi, na Índia, resultou no documento intitulado “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”.
A reunião contou com a participação do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e dos presidentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Masoud Pezeshkian (Irã). O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto os Emirados Árabes Unidos foram representados pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan.
Diplomacia e Conflitos Internacionais
O grupo expressou apreensão com a instabilidade na região do Oriente Médio e Ásia Ocidental, solicitando a máxima contenção e a interrupção de ações que possam agravar o cenário. O texto evita citar nominalmente os países envolvidos ou utilizar o termo "guerra", estratégia comum em documentos diplomáticos para viabilizar consensos.
O posicionamento ocorre em um contexto de alta tensão iniciado em fevereiro deste ano, após ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sob a justificativa de desenvolvimento de armas nucleares — acusação negada pelos iranianos. Em resposta, o Irã realizou ataques contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, ambos membros do Brics e aliados americanos.
Reforma da ONU e Governança Global
A declaração defende a reestruturação do Conselho de Segurança da ONU, visando ampliar a representatividade de países em desenvolvimento e tornar o órgão mais democrático e eficiente. Atualmente, o conselho é composto por 15 países, sendo cinco permanentes com poder de veto: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.
No documento, China e Rússia reiteram o apoio para que Brasil e Índia assumam papéis de maior relevância na organização e em seu Conselho de Segurança, embora o texto não especifique a concessão de assento permanente ao Brasil.
Comércio e Economia
No âmbito econômico, os signatários criticaram a imposição de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais, classificando-as como distorções ao comércio e incompatíveis com as normas da Organização Mundial do Comércio. O documento não menciona nominalmente os Estados Unidos, que implementam tais tarifas desde o início da gestão de Donald Trump, em 2025, impactando diretamente a economia de Brasil, China e Índia.
Sobre o sistema financeiro, o grupo indicou o avanço em direção a mecanismos de pagamentos transfronteiriços utilizando moedas locais. Não houve, contudo, menção à criação de uma moeda própria do bloco ou à substituição do dólar.
Desenvolvimento Social
O combate à pobreza extrema foi apontado como o principal desafio global e condição essencial para o desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o documento registra a proposta, apresentada por Brasil e África do Sul, para a criação de um painel internacional dedicado ao enfrentamento da desigualdade.
O encontro em Nova Delhi sucede a presidência do Brics pelo Brasil em 2025, cujo evento anual ocorreu em julho, no Rio de Janeiro.