Candidatos a presidente utilizam jogos virtuais e cultura pop para atrair eleitores da Geração Z
Candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro utilizaram estratégias digitais, manifestações universitárias e elementos da cultura pop para atrair eleitores entre 16 e 30 anos. As ações incluíram carreatas no jogo Roblox, paródias de funk e mobilização de fandoms. Pesquisas do Datafolha registraram oscilações de apoio nessa faixa etária durante o pleito
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A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) foi marcada por novas estratégias de engajamento voltadas para a Geração Z, com eleitores entre 16 e 30 anos utilizando ferramentas digitais e manifestações culturais para expressar apoio político. A tendência revela uma convergência entre a política e o entretenimento, especialmente no ambiente das redes sociais.
Mobilizações digitais e virtuais
Uma das formas mais inusitadas de militância ocorreu na plataforma de jogos Roblox, onde apoiadores de ambos os candidatos organizaram carreatas virtuais. Esses eventos simulam atos reais, com o uso de buzinaços, faixas e apresentações de avatares de artistas falecidos, como Renato Russo e Kurt Cobain.
No caso dos apoiadores de Flávio Bolsonaro, as carreatas no jogo contaram com viaturas policiais, cavalos e placas com frases como "Aqui é 22" e "Fora Lula", além de simulações de carros de som. Já os grupos pró-Lula coordenaram a participação dos jogadores via Instagram, orientando a manutenção de uma velocidade constante nos veículos virtuais para garantir a organização do cortejo, onde os avatares vestiam vermelho.
Atos universitários e manifestações de rua
Em São Paulo, o ambiente acadêmico foi palco de mobilizações opostas. No início de outubro, estudantes do Mackenzie, USP e PUC-SP realizaram um ato na Rua Maria Antônia em apoio a Lula, após a instituição Mackenzie proibir manifestações partidárias internas. O evento contou com a presença das deputadas federais Natalia Boulos (PSOL) e Luna Zarattini (PT).
Posteriormente, alunos do Mackenzie, Insper, Ibmec e ESPM organizaram uma manifestação em apoio a Flávio Bolsonaro na Rua Quatá, na Vila Olímpia. O ato foi acompanhado pelo deputado estadual Lucas Bove (PL) e pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que participou via videochamada.
Estratégias culturais e estética pop
As campanhas adaptaram linguagens populares para atrair o público jovem:
- Campanha de Flávio Bolsonaro: Utilizou paródias de funk com letras adaptadas, como o refrão "Quem ficar parado é petista disfarçado". O gênero musical embalou atos em diversas cidades, incluindo Vitória (ES), onde o candidato dançou em um trio elétrico ao lado do deputado Nikolas Ferreira (PL). Outra iniciativa foi o "Bloquinho do 22", que integrou elementos de carnaval e trios elétricos; a manifestação na Avenida Paulista, em 18 de outubro, reuniu 71,9 mil pessoas.
- Campanha de Lula: Apostou no envolvimento de fandoms (comunidades de fãs) de artistas como Beyoncé, Taylor Swift, Anitta e BTS. Esses grupos aplicaram táticas de redes sociais, como mutirões de hashtags e compartilhamento massivo de conteúdo. No dia 11 de outubro, representantes desses grupos reuniram-se com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e foram citados publicamente por Lula na Avenida Paulista. Além disso, a campanha adotou adesivos com estética pop e frases bem-humoradas, como "Gostosas com Lula", que passaram a ser colecionados por jovens na internet.
Panorama estatístico e comportamento do eleitor
Dados do instituto Datafolha indicam oscilações no apoio do eleitorado jovem. Antes do primeiro turno, Lula liderava com 46% contra 32% de Flávio Bolsonaro (na faixa de 16 a 24 anos). No segundo turno, Flávio chegou a aparecer com 50% contra 43% em 8 de outubro, mas Lula retomou a liderança em 15 de outubro (50% a 43%). No levantamento de 23 de outubro, os números foram 47% para Lula e 42% para Flávio, com margem de erro de 6 pontos percentuais.
Sobre esse comportamento, Renato Meirelles, presidente do instituto Locomotiva, observa que a mobilização jovem sempre utilizou as ferramentas culturais disponíveis, mas agora em escala global via internet. O especialista pontua que a divisão do voto jovem reflete questões concretas: mulheres jovens tenderiam a valorizar mais os serviços públicos e a rejeitar discursos radicalizados, enquanto jovens homens teriam maior desconfiança em relação à proteção do Estado.
Já a professora da ECA-USP, Issaaf Karhawi, ressalta que, embora esses formatos levem o debate político às novas gerações, a arquitetura das plataformas e os algoritmos tendem a criar "bolhas", limitando o alcance do conteúdo a pessoas que já possuem interesses semelhantes, a menos que a interação ocorra em redes de contatos pessoais.