Política

Conflitos internos com Michelle Bolsonaro podem comprometer a estratégia de moderação de Flávio Bolsonaro

29 de Junho de 2026 às 12:26

O senador Flávio Bolsonaro (PL) busca ampliar sua base eleitoral com pautas sociais e econômicas, mas enfrenta conflitos internos com Michelle Bolsonaro. O parlamentar propõe a defesa da indústria brasileira nos EUA e a manutenção do Bolsa Família, enquanto mantém medidas radicais de segurança pública

Conflitos internos com Michelle Bolsonaro podem comprometer a estratégia de moderação de Flávio Bolsonaro
Adriano Machado/Reuters e Evaristo Sá/AFP

A estratégia de moderação adotada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, enfrenta obstáculos devido a conflitos internos no núcleo bolsonarista. O parlamentar tem buscado ampliar sua base eleitoral, focando especialmente em mulheres e eleitores independentes, mas a crise pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pode comprometer esse avanço.

O desentendimento tornou-se público na última terça-feira (24), quando Michelle publicou um vídeo relatando ter sofrido uma "punhalada" no ano passado. A divergência ocorreu após ela criticar a articulação do PL no Ceará, que visava apoiar Ciro Gomes (PSDB) para o governo estadual. Na ocasião, Michelle afirmou ter sido maltratada por Flávio e que sua opinião foi ignorada. O senador reagiu alegando que a ex-primeira-dama teria atropelado as decisões do presidente Bolsonaro e ressaltou que ela precisaria compreender a importância dos processos de decisão política. Posteriormente, em uma tentativa de conciliação, Flávio pediu desculpas e manifestou respeito ao trabalho de Michelle no PL Mulher e ao seu papel na família.

Essa instabilidade institucional gera impactos distintos na percepção da candidatura. Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília (UnB), aponta que a manifestação de Michelle pode causar desgaste junto ao público feminino. Já Mayra Goulart, diretora do IFCS/UFRJ, avalia que a turbulência dificulta a atração de elites políticas para a composição de palanques. Paralelamente, Luciana Veiga, professora da UERJ, observa que o monitoramento de redes sociais indica que o principal efeito é o enfraquecimento da unificação do bolsonarismo sob uma única liderança.

Para tentar suavizar sua imagem, Flávio Bolsonaro incorporou pautas sociais ao seu discurso. Em evento em Guarulhos, no dia 20 de junho, prometeu um "pacto contra a fome", termo utilizado por Lula (PT) em 2003, e encerrou a fala com a frase "a esperança vai vencer o medo", ecoando a campanha petista de 2022. Anteriormente, em evento da revista Veja, defendeu a manutenção do Bolsa Família como um direito adquirido. O consultor Marcelo Vitorino analisa que a medida visa ocupar um espaço atualmente dominado por Lula, embora ressalte que a falta de uma trajetória dedicada ao social pode afetar a credibilidade da proposta, sugerindo que a escolha de um vice com esse perfil seria mais estratégica.

No campo econômico, o senador tenta se posicionar como defensor dos interesses nacionais frente às tarifas dos Estados Unidos. A movimentação ocorre após pesquisa Quaest de junho indicar que 47% dos entrevistados veem Lula como quem melhor representa o patriotismo, contra 37% para Flávio. A mesma pesquisa mostrou que 47% concordam com a acusação de que o senador incentivou o "tarifaço", enquanto 35% acreditam na versão de Flávio de que ele pediu a não adoção de novas taxas. Em resposta, durante evento em Presidente Prudente, Flávio anunciou que viajará aos EUA para defender a indústria brasileira e evitar sobretaxas. Vale notar que, em 2025, quando Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, o senador evitou criticar o líder americano, sugerindo que a medida poderia acelerar a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

Apesar da moderação em temas sociais e econômicos, Flávio mantém propostas radicais na segurança pública. Seu plano de 12 medidas inclui a redução da maioridade penal para 16 anos, a castração química para abusadores sexuais, a criação de cinco presídios de segurança máxima baseados no modelo de El Salvador, a classificação de milícias e facções como organizações narcoterroristas e a transferência de auxílios de familiares de presos para as famílias das vítimas. Para Mayra Goulart, esse conjunto de propostas evidencia os limites da estratégia de moderação, indicando que o senador busca equilibrar a atração de moderados sem abrir mão das pautas centrais do bolsonarismo radical.

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