Política

Defesa torna-se prioridade da política externa brasileira diante de vulnerabilidades regionais e conflitos globais

13 de Junho de 2026 às 15:02

A defesa e outros cinco desafios estruturais, como minerais críticos, soberania digital e integração regional, são prioridades da política externa brasileira até 2030. O governo planeja criar o Conselho Nacional de Minerais Críticos e liderar o combate ao crime organizado via Interpol. A estratégia visa mitigar vulnerabilidades regionais e recuperar a cooperação com países africanos

Defesa torna-se prioridade da política externa brasileira diante de vulnerabilidades regionais e conflitos globais
© FERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL

A área de defesa surge como um dos eixos centrais e mais urgentes da política externa brasileira para os próximos anos. A necessidade de maior atenção ao setor é impulsionada pela conjuntura global de expansão de conflitos e, especificamente, pela ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, voltada ao controle de reservas de petróleo. Durante a 2ª Conferência Nacional Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), o assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República, Audo Faleiro, alertou que a percepção de vulnerabilidade regional torna o debate sobre a defesa do país prioritário.

Faleiro pontuou que, embora não exista atualmente uma ameaça objetiva ao território brasileiro, o país enfrenta um dilema interno sobre a viabilidade de investimentos no setor. De um lado, há a visão de que a natureza pacífica do Brasil dispensaria tais gastos; de outro, a crença de que a assimetria militar global tornaria qualquer investimento insuficiente. No entanto, o assessor argumentou que conflitos assimétricos, como o ocorrido entre Estados Unidos e Irã, demonstram que a capacidade de dissuasão é fundamental, pois a força bruta nem sempre garante a vitória.

Além da defesa, a agenda externa brasileira até 2030 deverá priorizar outros cinco desafios estruturais. No campo dos minerais críticos e terras raras, Faleiro destacou a defasagem do arcabouço regulatório, ressaltando que o Brasil é o segundo maior detentor desses recursos. Para reverter esse cenário, a gestão atual trabalha na criação de um Conselho Nacional de Minerais Críticos vinculado à Presidência da República, visando desenvolver estratégias de apropriação dessa vantagem competitiva.

No combate ao crime organizado transnacional, a estratégia do governo é evitar que o tema seja utilizado para fins políticos. Como medida preventiva, o Brasil buscou e obteve a direção-geral da Interpol, atualmente ocupada por um delegado da Polícia Federal. O objetivo é que o país lidere a proposição de uma pauta de combate ao crime organizado para a América Latina, atraindo inclusive nações alinhadas à administração americana.

Quanto à soberania digital, o assessor admitiu que o Brasil está atrasado e perdeu a oportunidade de participar da evolução inicial do tema, o que exigirá investimentos robustos para recuperar o terreno perdido.

No âmbito da integração regional, Faleiro descreveu um cenário de fragmentação na América Latina e Caribe. Ele atribuiu a paralisia de organismos como a Celac e a tentativa de reerguer a Unasul a dois fatores principais: a eleição de Javier Milei na Argentina e o resultado do processo eleitoral de 2024 na Venezuela, que geraram um estado de veto cruzado na região.

Sobre a relação com os países africanos, a avaliação é de que, apesar da simpatia histórica herdada dos dois primeiros mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil sofreu com dez anos de negligência. Esse vácuo permitiu que outros atores internacionais se estabelecessem com instrumentos de cooperação mais eficazes, exigindo agora que o Brasil repense suas ferramentas de política externa para o continente.

Por fim, o assessor criticou a expansão dos Brics ocorrida em 2023, classificando a inclusão de novos membros como um erro que resultou no congelamento do bloco. Segundo Faleiro, a falta de consenso — exemplificada por conflitos militares entre membros, como Irã e Emirados Árabes Unidos — impediu, inclusive, que o grupo emitisse declarações sobre a crise no Oriente Médio, tornando a reversão desse equívoco improvável.

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