Política

Estados Unidos designam PCC e Comando Vermelho como entidades terroristas internacionais

29 de Maio de 2026 às 09:20

O Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como entidades terroristas internacionais nesta quinta-feira (28/5). A medida ocorreu após articulações do senador Flávio Bolsonaro com o governo norte-americano e contou com a oposição do governo brasileiro

Estados Unidos designam PCC e Comando Vermelho como entidades terroristas internacionais
Getty Images

O Departamento de Estado dos Estados Unidos designou, nesta quinta-feira (28/5), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como entidades terroristas internacionais. A decisão ocorre um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encerrar uma agenda em Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, para defender a adoção dessa medida.

A classificação representa um revés diplomático para a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sendo considerada a maior derrota na relação com o governo Trump desde a implementação de tarifas comerciais em 2025. A administração brasileira se opunha à designação, argumentando que a medida poderia comprometer a soberania nacional ao justificar intervenções militares norte-americanas sob a premissa de combate ao terrorismo. Além disso, o governo sustentava que a ação contraria a legislação brasileira, que diferencia a atividade de facções criminosas do terrorismo.

Em contrapartida, o grupo político liderado por Flávio Bolsonaro pleiteava a medida há mais de um ano, utilizando a resistência do governo federal para sugerir uma suposta conivência da atual gestão com o crime organizado. O senador afirmou que defendeu a classificação junto à equipe de Trump, projetando que, a partir de 2027, o Brasil se tornaria um aliado no combate a essas organizações.

O processo de designação vinha sendo estudado por Washington há anos. Em 2021, a Secretaria do Tesouro já havia classificado o PCC como entidade designada, permitindo sanções a integrantes e empresas parceiras. Contudo, a estratégia de elevar as facções ao status de terroristas ganhou força no segundo mandato de Trump, em 2025, com o apoio de técnicos do Departamento de Estado e oficiais da Embaixada dos EUA em Brasília. Entre o final de 2025 e o início de 2026, assessores norte-americanos chegaram a se reunir com promotores brasileiros. Em maio de 2025, David Gamble e Ricardo Pitta, do Departamento de Estado, visitaram o Brasil, ocasião em que Pitta se reuniu com a família Bolsonaro, que já apoiava a medida.

O governo Lula tentou neutralizar a iniciativa através de canais diplomáticos e discursos internacionais. Em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral da ONU, o presidente criticou a equiparação entre criminalidade e terrorismo, defendendo que a repressão à lavagem de dinheiro e ao comércio de armas seria mais eficaz. Em março deste ano, após a divulgação de que a medida estava próxima de ser adotada, o ministro Mauro Vieira contatou Marco Rubio e o governo brasileiro intensificou a proposta de cooperação bilateral como alternativa à designação.

Diante do anúncio oficial, o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores planejam modular a resposta para evitar desgaste político interno às vésperas das eleições. Reuniões internas, que podem envolver a pasta da Fazenda, definirão o posicionamento oficial a partir de amanhã. A estratégia deve focar na divulgação de ações recentes contra o crime organizado e na abertura para a cooperação internacional.

Internamente, o governo reconhece que a decisão foi influenciada pela articulação da ala bolsonarista junto ao governo dos EUA para gerar constrangimento político à gestão petista. Há também a preocupação com os reflexos no sistema financeiro, dado o risco de sanções a bancos ou empresas brasileiras que possuam vínculos comerciais, ainda que involuntários, com as facções designadas.

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