Governo brasileiro critica criação do Escudo das Américas e a classificação de facções como terroristas
O governo brasileiro manifestou oposição ao Escudo das Américas, coalizão liderada por Donald Trump que classifica o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O Palácio do Planalto contesta a justificativa de combate ao crime organizado e as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos. A iniciativa conta com a adesão de presidentes da Argentina, Colômbia e El Salvador
O governo brasileiro manifestou forte oposição à criação do Escudo das Américas, iniciativa do presidente Donald Trump que, segundo o assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim, busca estabelecer uma "dominação absoluta" e um "cerco" ao Brasil. O governo brasileiro contesta a justificativa de combate ao crime organizado utilizada pelos Estados Unidos para fundamentar a coalizão.
Alinhamento regional e sanções criminais
A coalizão é composta por presidentes latino-americanos alinhados à gestão Trump, com destaque para Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia) e Nayib Bukele (El Salvador). No mês anterior, atendendo a uma solicitação de Washington, o grupo formalizou um acordo para classificar facções criminosas como ameaças compartilhadas, tornando-as alvos de sanções.
Entre os 24 grupos listados na proposta, estão as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). A classificação dessas organizações como organizações terroristas por parte do governo Trump também foi criticada pelo Palácio do Planalto, sob o argumento de que a rotulação não soluciona a questão do crime organizado.
Impactos institucionais e geopolíticos
Auxiliares diretos do presidente Lula classificam a medida como "muito grave", interpretando o Escudo das Américas como um mecanismo que pode viabilizar intervenções militares na região, citando precedentes na Colômbia e na Venezuela.
Embora o Planalto avalie que a maioria dos países vizinhos deseja manter a boa relação com o Brasil, a adesão ao projeto americano ocorreu por diferentes motivações:
- Alinhamento automático: No caso de Milei, Bukele e Espriella.
- Estratégia política: No caso de Panamá, Paraguai e Equador, que buscam evitar ações militares em seus territórios ou captar recursos financeiros.
Pressão econômica e tarifas comerciais
Além da esfera de segurança, Celso Amorim associou a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros a uma tentativa de intimidação política contra o presidente Lula durante o processo eleitoral no Brasil. A Casa Branca implementou dois tarifaços:
- Alíquota de 25%: Justificada por supostas práticas desleais do Brasil em setores como propriedade intelectual, etanol, desmatamento e o sistema PIX.
- Alíquota de 12,5%: Aplicada a diversos países, incluindo o Brasil, sob a alegação de falha no combate à importação de mercadorias oriundas de trabalho forçado.
Negociadores brasileiros contestam a base técnica dessas medidas, afirmando que os Estados Unidos utilizaram informações improcedentes. Um dos pontos centrais da divergência é a alegação americana de déficit comercial com o Brasil, enquanto os dados indicam que a relação é, na verdade, superavitária para os Estados Unidos.
Para Amorim, a pressão econômica reflete o desejo americano de ter um governo brasileiro submisso, comparando a pretensão de Washington à relação de dependência existente com Porto Rico.