IA é usada em 25% das imagens ofensivas contra candidatas na rede social X
Levantamento do projeto MonitorA indica que 25% das imagens ofensivas contra candidatas na rede social X possuem indícios de manipulação por inteligência artificial. O estudo analisou 11.137 imagens, identificando 660 conteúdos ofensivos, com destaque para ataques de natureza misógina, gordofóbica e transfóbica. Marina Silva, Sâmia Bomfim e Erika Hilton foram as parlamentares mais visadas
A inteligência artificial tornou-se um instrumento para a produção em massa de conteúdos ofensivos direcionados a mulheres na disputa eleitoral. Um levantamento do projeto MonitorA, observatório especializado em violência política de gênero, revelou que 25% das imagens classificadas como ataques ou insultos contra candidatas na rede social X apresentam indícios de manipulação por IA. Outros 9% dos casos permaneceram inconclusivos quanto ao uso da tecnologia.
O estudo analisou 11.137 imagens presentes em 9.393 comentários de 132 candidatas. O monitoramento ocorreu em dois recortes temporais: entre 16 e 24 de agosto, no início da disputa, e de 2 a 11 de setembro, período posterior à crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso Master. Ao todo, foram identificadas 660 imagens ofensivas.
Tipologia das ofensas e uso da tecnologia
Diferente do impacto causado por deepfakes — manipulações sofisticadas de voz e imagem para simular a realidade —, a maior parte do conteúdo identificado não busca verossimilhança. A IA tem sido utilizada para criar charges, memes e montagens com o objetivo de ridicularizar, humilhar ou desumanizar as candidatas.
O MonitorA dividiu as ofensas em duas categorias distintas:
- Insultos: Linguagem hostil e dura, mas que não utiliza marcadores de desigualdade. Foram registradas 269 imagens nesta categoria.
- Ataques: Conteúdos que visam deslegitimar a candidata com base em gênero, raça, religião, sexualidade ou deficiência. Foram identificados 391 ataques, os quais, devido ao caráter discriminatório, deveriam ser removidos pelas plataformas.
Alvos e padrões de violência
A distribuição das ofensas revela que candidatas de diferentes espectros políticos são atingidas, porém com repertórios de violência específicos. Marina Silva (Rede) foi a candidata com maior volume de registros, somando 125 ofensas (17% do total), concentradas em ataques misóginos, etaristas e desumanizantes, incluindo representações como animais ou alienígenas.
Sâmia Bomfim (111 registros) e Erika Hilton (109 registros), ambas do PSOL, também figuram entre as mais visadas. Juntas com Marina Silva, as três parlamentares concentram quase metade de todas as imagens ofensivas. No caso de Sâmia Bomfim, 70,6% dos ataques são de natureza gordofóbica, enquanto 47,9% das ofensas contra Erika Hilton são transfóbicas, incluindo a negação de sua identidade de gênero.
No campo da direita, candidatas do PL também foram alvos. Julia Zanatta recebeu 76 registros, a maioria concentrada no segundo período da análise, com foco na sexualização e questionamentos sobre seu conservadorismo. Já Vanessa da Silva foi alvo de 30 imagens, sendo que 70% delas consistiam em ataques racistas com referências ao período da escravidão.
Distribuição dos ataques por categoria
A análise quantitativa dos ataques discriminatórios aponta a misoginia como a violência mais frequente, seguida por gordofobia e transfobia:
| Categoria de Ataque | Percentual | Volume de Imagens |
|---|---|---|
| Misoginia | 25,3% | 99 |
| Gordofobia | 14,1% | 55 |
| Transfobia | 11,8% | 46 |
| Desumanização | 10,0% | 39 |
| Racismo | 6,9% | 27 |