Política

Investigações da Polícia Federal mostram aumento de 20 vezes em casos de corrupção eleitoral

04 de Junho de 2026 às 06:19

Organizações criminosas financiam candidaturas e utilizam a compra de votos para controle territorial no Brasil. A Polícia Federal registrou aumento de quase 20 vezes nas investigações de corrupção eleitoral desde 2016, com R$ 43 milhões apreendidos em dez anos. No Rio de Janeiro, o TRE-RJ alterou 53 locais de votação em 2024 para evitar coações

Investigações da Polícia Federal mostram aumento de 20 vezes em casos de corrupção eleitoral
Reprodução/GloboNews

A infiltração de organizações criminosas no processo democrático brasileiro tornou-se um desafio central para as autoridades, transformando a compra de votos em um mecanismo de controle territorial. Grupos como o Comando Vermelho, o PCC e milícias utilizam recursos provenientes de roubos e do tráfico de drogas para financiar candidaturas, comprometendo a liberdade de escolha do cidadão e a segurança dos pleitos. Esse cenário reflete-se nos dados da Polícia Federal, que registrou um aumento de quase 20 vezes nas investigações de corrupção eleitoral desde 2016, resultando na apreensão de R$ 43 milhões ao longo de dez anos.

A Procuradoria-Geral Eleitoral destaca que a atuação dessas organizações extrapola a corrupção financeira, interferindo diretamente na seleção de candidatos e na capacidade do eleitor de votar livremente. Em regiões dominadas pelo crime, o cidadão que comercializa seu voto torna-se refém do grupo local. No Rio de Janeiro, a pressão exercida por esses grupos levou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) a alterar o endereço de 53 locais de votação nas eleições de 2024 para proteger os eleitores de coações. Para o pleito de 2026, o tribunal já previu a necessidade de mudar a localização de ao menos 20 zonas eleitorais. O presidente do TRE-RJ, desembargador Claudio de Mello Tavares, ressalta que, embora o sistema eletrônico e o sigilo do voto sejam seguros, o crime organizado foca no constrangimento físico dos eleitores.

A conexão entre agentes públicos, candidatos e o poder paralelo é exemplificada por condenações em Belford Roxo (RJ). O candidato Dinho Resenha, suspeito de vínculos com milícias, e o policial militar Michel Maia, que atuava como seu cabo eleitoral, foram condenados por corrupção eleitoral. Escutas revelaram que Maia ameaçava eleitores e pagava valores entre R$ 50 e R$ 100 por votos. A defesa de Dinho Resenha nega as acusações e afirma que a inocência será comprovada após os recursos. Já a defesa de Michel Maia informou que aguarda o julgamento de recurso, não sendo a condenação definitiva.

O fenômeno também atinge o interior do país. Em Timbé do Sul (SC), investigações sobre tráfico de drogas expuseram um esquema onde a cocaína era utilizada como pagamento por votos. Através do celular do traficante Claudiomir da Silva, a polícia identificou que fotos de títulos de eleitor eram trocadas por droga no valor de R$ 50, prática referida como "moeda branca". Um eleitor confessou a transação. O beneficiário do esquema, Sadi Vieira, foi eleito vereador e presidiu a Câmara Municipal, recebendo a condenação por corrupção eleitoral apenas no último mês de seu mandato, em 2024.

A repressão a esses crimes é dificultada pela natureza hermética dos delitos, que ocorrem em núcleos fechados ou familiares, onde o medo silencia testemunhas. Além do impacto jurídico, a corrupção eleitoral gera a degradação de serviços essenciais. O promotor Guilherme Franchi aponta que a venda do voto impacta diretamente a escassez de professores, merenda escolar e medicamentos. Para os eleitores que participaram dessas trocas, como ocorreu em Santa Catarina, resta o sentimento de arrependimento.

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