Itamaraty convoca embaixador brasileiro na Argentina após declarações de Javier Milei contra Lula
O Itamaraty convocou o embaixador Júlio Bitelli de volta a Brasília após o presidente argentino Javier Milei proferir ofensas contra Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes. Ministros brasileiros também reagiram com críticas ao governante da Argentina. A parceria estratégica em áreas de infraestrutura, energia e comércio permanece ativa apesar dos atritos políticos
A relação diplomática entre Brasil e Argentina atravessa um período de instabilidade marcado por embates diretos entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. O cenário de tensão mais recente foi desencadeado por declarações de Milei durante a convenção do Partido Liberal, onde o governante argentino chamou Lula de "presidiário" e referiu-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, como "lixo careca". Na ocasião, Milei também exaltou a "onda azul" — avanço de governos de direita e centro-direita na América do Sul — e manifestou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Como resposta formal a esses episódios e às constantes críticas de Milei em redes sociais, o Itamaraty convocou o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, para retornar a Brasília.
Reações do governo brasileiro
A postura do governo brasileiro diante das ofensas variou entre a contenção diplomática e reações individuais de ministros. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, descreveu Milei como uma "caricatura patética" e "puxa-saco" de Donald Trump. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou o presidente argentino como "palhaço", contrastando a situação econômica dos dois países ao apontar que a Argentina possui inflação, dívida pública e risco-país mais elevados que o Brasil.
Embora Durigan tenha posteriormente alegado que sua fala foi uma iniciativa pessoal e não uma posição oficial, tanto ele quanto Boulos receberam críticas internas do Palácio do Planalto e do Itamaraty. A avaliação institucional é que o tom utilizado pelos ministros se assemelhou ao de Milei, distanciando-se da linha diplomática adotada pelo governo.
O próprio presidente Lula já reagiu a Milei em momentos anteriores, questionando a identidade do governante e classificando certas atitudes como "patacoada", embora tenha afirmado que evitou responder a certas provocações para preservar sua posição de chefe de Estado.
Histórico de instabilidade bilateral
O conflito entre as lideranças atuais começou ainda na campanha eleitoral argentina, quando Lula apoiou Sergio Massa, enquanto Milei, de perfil ultraliberal, atacava o governo do PT. Mesmo com a troca de farpas, o Brasil foi representado por Mauro Vieira na posse de Milei.
Esse padrão de atrito não é inédito. Em 2019, Jair Bolsonaro apoiou Mauricio Macri e, após a vitória de Alberto Fernández, evitou cumprimentá-lo, não compareceu à posse nem enviou representantes, rompendo a tradição diplomática. Naquele período, as divergências focaram na gestão do Mercosul, com Bolsonaro defendendo a redução da Tarifa Externa Comum e a flexibilização para que países-membros negociassem acordos individuais.
Preservação da agenda estratégica
Apesar da rivalidade declarada entre os presidentes, a estrutura de Estado de ambos os países mantém a parceria estratégica. A integração econômica e os interesses mútuos no comércio e no Mercosul impedem que crises políticas resultem em rupturas institucionais.
De acordo com a professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, a convocação de embaixadores é um rito diplomático tradicional e a estratégia brasileira tem sido contestar ofensas sem ampliar os conflitos. No mesmo sentido, o embaixador argentino no Brasil, Pablo Quirno, afirmou que as questões políticas não devem migrar para o plano prático.
A manutenção de negociações em áreas de infraestrutura, energia e comércio reforça a lógica de que acordos de cooperação prevalecem sobre as divergências ideológicas. Esse entendimento foi corroborado por Alberto Fernández ao final de seu mandato, ao enfatizar que a relevância econômica bilateral deve estar acima de qualquer diferença política.