TSE identifica divergências na autodeclaração racial de 786 candidatos para as eleições de 2026
O TSE identificou divergências na autodeclaração de cor ou raça em 786 candidaturas para as eleições de 2026, o que representa 4,5% dos 17.413 registros. A maioria das alterações ocorre em disputas para o Legislativo, com destaque para os partidos Republicanos, PL e MDB
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/8/1/UgvVIYRXa3RQBwiyAryA/mg-2151-01.jpg)
Cerca de 786 candidatos registrados para as eleições de 2026 apresentaram divergências na autodeclaração de cor ou raça em comparação aos dados da Justiça Eleitoral de 2022. O volume representa 4,5% das 17.413 candidaturas registradas até a noite de quarta-feira (12), conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O prazo para que partidos, coligações e federações apresentem os pedidos de registro encerra-se às 19h deste sábado, 15 de agosto, o que pode alterar os números atuais.
Dinâmica das alterações raciais
A transição mais comum ocorreu de branca para parda, em 308 casos, seguida pela mudança de parda para branca, em 262 registros. Somadas, essas duas movimentações representam 72,5% de todas as alterações identificadas.
No detalhamento das autodeclarações para 2026 entre os candidatos com divergências, a distribuição ficou assim:
- Parda: 419 candidatos (53,3%);
- Branca: 275 (34,9%);
- Preta: 76 (9,6%);
- Indígena: 9 (1,1%);
- Amarela: 7 (0,9%).
Ao agrupar pretos e pardos como pessoas negras, observa-se que 313 candidatos migraram de declarações brancas ou amarelas para negras, enquanto 269 fizeram o caminho inverso. Houve ainda 182 mudanças internas entre as categorias negras, sendo 108 de preta para parda e 73 de parda para preta.
Distribuição por cargos e legendas
A grande maioria das alterações concentra-se em disputas para o Legislativo, somando 753 registros (95,8%). O volume maior está entre candidatos a deputado estadual (452), seguido por deputado federal (279) e deputado distrital (22).
Nos demais cargos, foram identificadas mudanças em oito candidaturas ao Senado, sete a governador, sete a vice-governador, sete a primeiro suplente, dois a segundo suplente e um a vice-presidente. Não houve alteração de autodeclaração entre os candidatos à Presidência da República.
Quanto aos partidos, o Republicanos detém o maior número absoluto de mudanças, com 75 casos (36 de branca para parda e 21 de parda para branca). Na sequência aparecem o PL, com 70 registros, e o MDB, com 62. No PL e no MDB, a alteração de parda para branca foi a mais frequente.
Impactos no financiamento e fiscalização
A autodeclaração racial impacta diretamente a distribuição de verbas públicas, já que a legislação obriga os partidos a destinarem, no mínimo, 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário para candidaturas de pessoas pretas e pardas.
Quando há divergência entre o novo registro e os dados anteriores, o TSE intima o candidato e a legenda para confirmação. Caso a alteração seja reconhecida como erro ou não haja resposta, o registro retorna ao dado anterior, proibindo o acesso aos recursos reservados para ações afirmativas. Se a nova declaração for mantida, a Justiça Eleitoral analisa o caso; se for comprovado o recebimento indevido de verbas, os valores podem ter de ser devolvidos.
Medidas partidárias e análises sociológicas
Para evitar irregularidades, algumas legendas implementaram mecanismos de controle. O PT e o PSOL informaram a adoção de bancas de heteroidentificação para validar candidatos pretos ou pardos. Já o partido Missão declarou oposição ao modelo atual de cotas raciais, afirmando que a mudança de declaração não garante acesso aos recursos. O PSD informou que segue as normas da Justiça Eleitoral.
A socióloga Flávia Rios explica que oscilações na percepção racial são históricas no Brasil, influenciadas por contextos culturais e, mais recentemente, por políticas de reserva de vagas. A pesquisadora aponta que as divergências podem ocorrer tanto por erros de preenchimento e mediação partidária quanto por intenções de acessar recursos destinados a candidaturas negras, embora os dados não permitam confirmar a segunda hipótese.
A coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, Ana Cláudia Santano, ressalta que a mudança na autodeclaração, por si só, não indica irregularidade, e que a concentração em cargos de deputado se deve ao volume total de candidatos a essas vagas. O TSE não respondeu aos questionamentos sobre a possibilidade de erros de cadastro.