Saúde

Aluno de aviação morre após participar de ritual com óleo de motor no Paraná

17 de Julho de 2026 às 15:19

O engenheiro Gustavo Henrique Lara, de 27 anos, morreu após sofrer uma reação anafilática durante um ritual de "banho de óleo" em uma escola de aviação em Ponta Grossa (PR). A Polícia Civil investiga o caso, enquanto a Anac alerta que lubrificantes aeronáuticos não devem ter contato com a pele

A morte de Gustavo Henrique Lara, engenheiro e aluno de aviação de 27 anos, após participar de um ritual conhecido como "banho de óleo" em uma escola de aviação em Ponta Grossa (PR), trouxe à tona os riscos à saúde associados a essa prática tradicional na formação de pilotos. O incidente ocorreu nesta quinta-feira (16), resultando em uma reação anafilática, crise convulsiva e três paradas cardiorrespiratórias. Embora as duas primeiras paradas tenham sido revertidas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o jovem não resistiu à terceira.

A Polícia Civil conduz as investigações sobre o caso e solicitou exames químico-periciais, toxicológicos e necroscópicos para determinar a causa exata do óbito. A irmã da vítima, Aline Lara, afirmou que a família não tinha conhecimento de qualquer histórico de alergias do rapaz.

Riscos do contato com óleos aeronáuticos

O "banho de óleo" consiste em despejar óleo de motor de aeronave sobre o aluno, geralmente do pescoço para baixo, para celebrar a conclusão de etapas da formação ou o primeiro voo solo. No entanto, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) alertou que lubrificantes e produtos químicos de aviação não devem entrar em contato com a pele, conforme orientam os rótulos dos fabricantes, sob risco de danos graves à saúde e morte.

A dermatologista Rafaela Salvato, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que esses produtos são industriais, formulados para resistir a atrito e altas temperaturas em máquinas, e não para contato com tecidos vivos. Por não passarem por testes de compatibilidade cutânea, controle de pH ou sensibilização, as fichas de segurança dos fabricantes recomendam o uso de equipamentos de proteção e a lavagem imediata em caso de exposição.

Mecanismos de absorção e anafilaxia

A absorção de componentes químicos pode ser intensificada quando o óleo é aplicado em grandes áreas do corpo, especialmente se a pele estiver quente, suada ou com pequenas lesões. Isso ocorre porque óleos e solventes são substâncias lipofílicas, capazes de dissolver os lipídios que compõem a barreira protetora da pele. Além disso, a aderência do produto ao corpo prolonga o tempo de exposição.

Sobre a gravidade do caso, a médica ressalta que a anafilaxia pode ocorrer de forma imprevisível, independentemente da quantidade de produto utilizada ou da ausência de histórico alérgico do indivíduo. Outro fator crítico é que, em contextos de celebração, sintomas iniciais como mal-estar, vermelhidão, coceira ou sensação de fechamento da garganta podem ser confundidos com a euforia do momento, retardando o socorro médico essencial em quadros de anafilaxia.

Evidências científicas e recomendações

A periculosidade da prática é corroborada por uma revisão científica de 2001, publicada na revista Environmental Research, intitulada The Toxicity of Commercial Jet Oils. O estudo aponta que:

  • Componentes tóxicos podem ser absorvidos pela pele;
  • O contato repetido pode causar alterações neurológicas devido a organofosforados presentes em alguns óleos;
  • O produto pode atuar como um sensibilizante cutâneo, induzindo alergias de contato.

Embora a revisão seja antiga e as formulações tenham mudado, os autores reforçam que o risco à saúde pode estar subestimado nas fichas de segurança.

Diante disso, a Anac solicitou que aeroclubes, escolas de aviação e organizações de instrução revejam a tradição, priorizando a segurança. Como alternativa para preservar o simbolismo do "batismo" sem riscos químicos, sugere-se a substituição do óleo por água, espuma, confetes ou champanhe.

Notícias Relacionadas