Anvisa aprova obinutuzumabe para tratamento de adultos com lúpus eritematoso sistêmico ativo
A Anvisa aprovou o uso do medicamento obinutuzumabe para adultos com lúpus eritematoso sistêmico ativo de moderado a grave que já utilizam terapia padrão. O fármaco, indicado para nefrite lúpica desde janeiro, agora abrange formas da doença que não atingem os rins
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A Anvisa aprovou, nesta terça-feira (13), a indicação do medicamento obinutuzumabe (comercializado como Gazya) para o tratamento de adultos com lúpus eritematoso sistêmico ativo, em graus de moderado a grave, que já utilizam a terapia padrão. O fármaco, já registrado no Brasil para o combate a leucemias e linfomas, possuía indicação para a nefrite lúpica (inflamação renal) desde janeiro.
A nova autorização expande o uso da substância para formas da doença que não atingem os rins, tornando o obinutuzumabe o primeiro de sua classe a apresentar resultados positivos em estudos de fase 3 para ambas as condições.
Mecanismo de ação e eficácia
No lúpus, o sistema imunológico ataca o próprio corpo através de anticorpos produzidos pelos linfócitos B, causando inflamações em articulações, pele, sangue, sistema nervoso e rins. O obinutuzumabe atua destruindo essas células de defesa de maneira mais profunda e duradoura do que o rituximabe, agindo inclusive nos tecidos e não apenas na corrente sanguínea.
Diferente de outros biológicos, como o belimumabe (que interrompe sinais de sobrevivência celular) ou o anifrolumabe (que bloqueia substâncias de alerta imune), o obinutuzumabe segue um esquema de infusões em ambiente hospitalar ou ambulatorial: quatro doses no primeiro ano, podendo evoluir para aplicações a cada seis meses.
Dados publicados no New England Journal of Medicine em março demonstram que:
- Cerca de 75% dos pacientes tratados apresentaram melhora na atividade da doença após um ano, contra pouco mais de 50% no grupo placebo.
- A remissão foi alcançada por um terço dos tratados, superando em mais do dobro o índice do placebo.
- Houve redução no risco de novos surtos.
Redução de corticoides e riscos associados
Um dos principais benefícios da terapia é a diminuição da dependência de corticoides, fármacos que, embora necessários, causam danos acumulados como osteoporose, diabetes, hipertensão, catarata, fraturas e infecções graves. No estudo, 80% dos pacientes que utilizavam doses altas de corticoides conseguiram reduzir a medicação para níveis seguros, enquanto no grupo placebo esse índice foi de 54%.
Contudo, a eliminação de linfócitos B aumenta a vulnerabilidade a infecções. Em ensaios sobre nefrite lúpica, observou-se maior frequência de eventos adversos graves, incluindo covid-19, com três óbitos no grupo tratado (dois por pneumonia associada à covid-19) e um no placebo. No grupo sem comprometimento renal, a diferença foi menor: 16% de eventos graves nos tratados contra 12% no placebo.
Devido a esses riscos, o protocolo exige:
- Rastreio de tuberculose e hepatite B antes do início.
- Atualização do calendário vacinal.
- Monitoramento constante de infecções e níveis de imunoglobulinas.
Perfil da doença e diagnóstico
O lúpus afeta predominantemente mulheres (nove para cada homem), com maior incidência entre os 15 e 45 anos. A condição pode ser desencadeada por fatores como tabagismo, radiação ultravioleta, exposição à sílica e infecção pelo vírus Epstein-Barr. Crises comuns são provocadas por estresse, gravidez, sol, infecções ou a interrupção do uso de hidroxicloroquina.
Os sintomas iniciais, que podem oscilar e dificultar o diagnóstico por meses ou anos, incluem:
- Fadiga intensa e febre sem causa aparente.
- Manchas no rosto e feridas na boca.
- Queda de cabelo e dores nas articulações das mãos.
Sinais de alerta que exigem avaliação urgente incluem pressão alta súbita, convulsões, inchaço, urina espumosa e queda brusca de hemoglobina ou plaquetas. A nefrite é particularmente grave, elevando o risco de morte de duas a seis vezes.
Acesso e viabilidade financeira
Embora a prescrição já seja permitida, o acesso ao obinutuzumabe enfrenta barreiras administrativas. O remédio não integra o rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que pode gerar negativas iniciais nos planos de saúde, embora a Lei 14.454/2022 preveja a cobertura de tratamentos com comprovação científica.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a incorporação depende da análise da Conitec e da atualização do protocolo clínico. O custo elevado e a necessidade de centros de infusão são obstáculos significativos, similar ao que ocorreu com a rejeição do belimumabe em 2018 e 2023. A principal justificativa para a inclusão no sistema público seria a economia gerada ao evitar a necessidade de transplantes e diálises.
Atualmente, o medicamento é visto como um complemento ao arsenal terapêutico, e não um substituto para as opções existentes, já que não há comparação direta com a voclosporina, o anifrolumabe ou o belimumabe. A cura definitiva permanece distante, embora pesquisas com células CAR-T busquem a remissão total sem a necessidade de fármacos contínuos.