Anvisa torna zolpidem tarja preta para conter uso inadequado do medicamento no Brasil
A Academia Brasileira de Neurologia alerta para o uso inadequado do zolpidem, que pode causar dependência e reações graves. Para conter o consumo, a Anvisa alterou a classificação do fármaco para tarja preta e exigiu a receita azul presencial em agosto de 2024
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O uso inadequado do zolpidem, principal medicamento para o tratamento de insônia no Brasil, tornou-se um problema de saúde pública, conforme alerta a Academia Brasileira de Neurologia (ABN). A substância, pertencente à classe dos sedativos e hipnóticos, é indicada para uso a curto prazo — no máximo quatro semanas —, mas a banalização da prescrição e o consumo excessivo têm provocado graves reações adversas.
Um caso emblemático ocorreu em 29 de junho de 2022, com o médico Vitor Piva, de 34 anos. Após ingerir quatro comprimidos do fármaco para tentar dormir, Piva sofreu uma queda do sétimo andar de um prédio em São Paulo. A Polícia Civil, após investigar a suspeita inicial de suicídio, arquivou o caso ao concluir que o acidente foi resultado de efeitos colaterais do medicamento, como parassonias (sonambulismo) e alucinações. O médico, que sofreu inúmeras fraturas no rosto e perdeu a visão, passou por cerca de 20 cirurgias e necessita de apoio familiar para atividades diárias.
Riscos e efeitos colaterais do uso inadvertido
O consumo de zolpidem fora das doses e prazos recomendados pode desencadear dependência química, crises de abstinência, delírios e amnésia lacunar — episódios em que o paciente apresenta "brancos" e não recorda suas ações. O risco é intensificado quando a droga é associada a álcool ou outros depressores do sistema nervoso central.
Devido à curta duração do efeito, a tolerância do organismo aumenta rapidamente, levando muitos pacientes a elevarem a dose. Há registros de pessoas que consomem de cinco a oito vezes a dose máxima recomendada, que é de um comprimido de 10 mg por dia.
Explosão de consumo e restrições da Anvisa
A comercialização do fármaco teve um salto expressivo no início da pandemia de covid-19. Em 2020, a Anvisa registrou a venda de 23,3 milhões de caixas, a primeira vez que o volume superou a marca de 20 milhões. O cenário levou profissionais da saúde a classificarem a situação como uma "epidemia de zolpidem".
Para conter esse avanço, a Anvisa implementou mudanças rigorosas em agosto de 2024:
- O medicamento passou a ser de tarja preta.
- A receita branca de controle especial foi substituída pela receita azul, exclusiva para substâncias que causam dependência.
- A prescrição agora deve ser feita obrigatoriamente de forma presencial.
Embora as vendas tenham caído para aproximadamente 13,5 milhões de caixas no último ano, especialistas alertam que os números não refletem a totalidade do problema devido ao robusto mercado ilegal de venda sem prescrição e ao uso de receitas falsificadas no Brasil.
Diretrizes para o tratamento da insônia
A nova diretriz clínica da Academia Brasileira de Neurologia enfatiza que a terapia cognitivo-comportamental, incluindo a higiene do sono e a regulação de horários, deve ser a primeira escolha para tratar as causas da insônia.
Quando o uso de hipnóticos é necessário, a orientação é que o tratamento seja temporário e que qualquer interrupção ou substituição do fármaco seja acompanhada por um médico para evitar crises graves. Especialistas apontam que a situação no Brasil é atípica e pode estar relacionada a lacunas na formação médica sobre a gestão de queixas do sono.