Brasil ocupa a 16ª posição global entre as nações com mais anos vividos doentes
Estudo da revista The Lancet Public Health indica que o Brasil ocupa a 16ª posição global em lacuna de morbidade, com brasileiros vivendo 12,5 anos com problemas de saúde em 2023. O índice cresceu progressivamente desde 1990, quando era de 10,4 anos
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/B/h/TdAkTKSHOra3z9wXYpGg/black-man-suffering-back-pain.jpg)
Embora a expectativa de vida no Brasil tenha crescido nas últimas décadas, atingindo a marca de aproximadamente 76 anos segundo o IBGE, esse aumento da longevidade não foi acompanhado por uma melhora proporcional na qualidade de saúde. Um estudo publicado na revista científica The Lancet Public Health, baseado nos dados do Global Burden of Disease 2023, revela que os brasileiros estão passando cada vez mais tempo convivendo com doenças, limitações ou incapacidades.
O levantamento analisou 204 países e territórios entre 1990 e 2023 para calcular a chamada lacuna de morbidade — a diferença entre a expectativa de vida total e a expectativa de vida saudável. Nesse ranking, o Brasil ocupa a 16ª posição entre as nações com o maior número de anos vividos em más condições de saúde.
Evolução da lacuna de morbidade no Brasil
A tendência de crescimento do tempo vivido com problemas de saúde no país é constante há mais de três décadas. Em 1990, a lacuna de morbidade brasileira era de 10,4 anos, índice que já superava a média mundial de 8,8 anos na época. A progressão seguiu em alta, registrando 11,2 anos em 2010 e 11,7 anos em 2020.
A única redução ocorreu em 2021, quando o índice recuou para 11,4 anos devido à pandemia de Covid-19. No entanto, esse movimento não representou uma melhora na saúde da população, mas sim o fato de que tanto a expectativa de vida quanto a saudável caíram simultaneamente em escala global.
A partir de 2022, a lacuna voltou a subir com maior intensidade, atingindo 12,2 anos em 2022 e 12,5 anos em 2023. Esse salto de mais de um ano em apenas dois anos supera o ritmo histórico observado desde 1990. Para o endocrinologista Clayton Macedo, esses dados reforçam a necessidade de a medicina focar na qualidade de vida do paciente, e não apenas na extensão da sobrevivência.
Causas globais e fatores de risco
O estudo aponta que a relação entre longevidade e doenças não é contraditória: países onde as pessoas vivem mais tendem a acumular mais anos com doenças crônicas não fatais. Já em nações com expectativa de vida menor, a lacuna é reduzida porque a vida, em média, é mais curta.
Globalmente, cinco causas são responsáveis por 57,4% dos anos vividos com problemas de saúde:
- Distúrbios musculoesqueléticos (especialmente a dor lombar);
- Transtornos mentais, como ansiedade e depressão;
- Doenças nos órgãos dos sentidos, como a perda auditiva ligada à idade;
- Lesões não intencionais, com destaque para as quedas;
- Outras doenças não transmissíveis.
Quanto aos fatores de risco, os principais contribuintes para esse cenário mundial são o tabagismo, a desnutrição materno-infantil, o excesso de peso e a glicemia de jejum elevada.
Diferenças de gênero e recomendações
A análise também identificou disparidades entre homens e mulheres. Embora as mulheres vivam mais, elas passam mais tempo doentes. Em 2023, a lacuna de morbidade global feminina foi de 12,1 anos, enquanto a dos homens foi de 9,3 anos.
Diante desse cenário, os autores do estudo defendem que as políticas de saúde pública devem expandir seu foco. Além de reduzir a mortalidade, é fundamental investir em estratégias de prevenção, reabilitação e cuidados de longo prazo para diminuir o tempo que a população passa convivendo com enfermidades.