Saúde

Brasil perde certificação de eliminação do sarampo após queda na cobertura vacinal

22 de Agosto de 2026 às 09:01

O Brasil perdeu a certificação de eliminação do sarampo em 2019 após a queda na cobertura da vacina tríplice viral, que chegou a 80% em 2020. Com a circulação do vírus, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo intensificou a imunização para pessoas entre 6 meses e 59 anos em cidades específicas

-0:00

A eficácia das campanhas de imunização criou um paradoxo para a saúde pública: a ausência visível de doenças como a poliomielite, a difteria e o sarampo reduziu a percepção de risco da população. Como as gerações atuais não convivem com as sequelas ou mortes causadas por essas enfermidades, a urgência em manter a vacinação em dia diminuiu, facilitando o retorno de vírus que já haviam sido controlados.

O retorno do sarampo no Brasil

O Brasil recebeu a certificação de eliminação do sarampo da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em 2016, permanecendo sem casos confirmados até 2017. No entanto, a partir de 2018, a doença voltou a circular devido à entrada de casos importados e à queda na cobertura vacinal. Essa transmissão contínua levou o país a perder a certificação de eliminação em 2019.

Entre 2018 e 2022, o país registrou mais de 39,8 mil casos, com o pico ocorrido em 2019, que somou 21,7 mil registros. Após uma queda acentuada — com 41 casos em 2022 e nenhum em 2023 —, os números voltaram a subir: foram cinco casos em 2024, 38 em 2025 e 24 confirmações no ano corrente.

Essa oscilação acompanha a redução da adesão à vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola). Enquanto em 2015 e 2016 a cobertura da primeira dose superava 95%, o índice caiu para 86% no ano seguinte, atingindo a marca mínima de 80% em 2020.

Medidas emergenciais e prevenção

Devido ao aumento da circulação do vírus, especialmente no estado de São Paulo, que concentra 23 casos, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) intensificou a imunização. A recomendação é que todas as pessoas entre 6 meses e 59 anos residentes na capital, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo sejam vacinadas, independentemente do histórico vacinal.

A vacina tríplice viral é disponibilizada gratuitamente pelo SUS nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A manutenção da vacinação é indispensável enquanto a doença não for erradicada globalmente, a exemplo do que ocorreu com a varíola. A gravidade do sarampo é evidenciada por dados da Opas: antes da vacinação em massa em 1980, a doença causava 2,6 milhões de mortes anuais no mundo, sendo 12 mil nas Américas.

Impactos no sistema de saúde e desinformação

A baixa circulação de certas doenças impacta a prática clínica, pois profissionais de saúde mais jovens podem ter pouca experiência direta com essas infecções. Por isso, protocolos de vigilância e notificação são essenciais, já que a alta transmissibilidade do vírus exige investigação rápida para conter novos focos.

Além da falta de referências concretas sobre a doença, a hesitação vacinal tem sido alimentada por fatores políticos e desinformação. No Brasil, especialmente após a pandemia de covid-19, figuras públicas e influenciadores de direita passaram a questionar a segurança dos imunizantes, utilizando argumentos de liberdade individual e autonomia familiar para justificar a não vacinação de filhos.

Exemplos recentes incluem o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que defendeu a liberdade dos pais em decidir sobre a imunização, e o deputado federal Nikolas Ferreira, que publicou conteúdos questionando a vacinação.

Cenário internacional

O fenômeno da resistência às vacinas também afeta os Estados Unidos, onde a oposição aos imunizantes integrou o debate político, resultando em novos surtos. Em apenas seis meses, o país registrou 2.295 casos de sarampo, superando o total de 2.289 ocorrências de todo o ano de 2025. Atualmente, 44 dos 50 estados americanos foram atingidos, a maior alta dos últimos 35 anos.

Notícias Relacionadas