Brasil suspende preventivamente vacina contra a dengue após registro de reações adversas inesperadas
Ministério da Saúde, Anvisa e Instituto Butantan suspenderam a vacina brasileira contra a dengue após a detecção de reações adversas não previstas. Das 500 mil doses aplicadas, 3.703 pessoas notificaram eventos inesperados, incluindo 42 casos graves e duas mortes em investigação. A Anvisa e especialistas conduzirão a análise epidemiológica para reavaliar a estratégia de imunização
O Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan suspenderam preventivamente a aplicação da vacina brasileira contra a dengue para reavaliar a estratégia de imunização. A medida, anunciada em coletiva de imprensa na última segunda-feira (8), ocorre após o sistema de farmacovigilância — que monitora efeitos de medicamentos e vacinas após a aprovação — identificar reações adversas não previstas nos estudos clínicos nem descritas na bula do imunizante.
Até o dia 30 de maio, foram aplicadas 500 mil doses, sendo a maioria destinada a profissionais de saúde. Desse total, 3.703 pessoas (0,7%) notificaram eventos inesperados com sintomas semelhantes aos da dengue. Entre esses registros, 42 casos foram classificados como graves por apresentarem sinais de alarme, como sangramentos, vômitos persistentes e dor abdominal, representando 0,008% do total de vacinados. Três quadros foram considerados severos, incluindo duas mortes que estão sob investigação. Um terceiro caso grave envolveu uma mulher de 39 anos que, após apresentar febre, náuseas e dores musculares, evoluiu para dengue grave com choque e precisou de internação em UTI, tendo se recuperado posteriormente.
Diante desse cenário, estados e municípios interromperão a vacinação. O governo federal orientou as gestões locais a realizarem a busca ativa de possíveis efeitos adversos para verificar a relação com o imunizante. A Anvisa convocará um comitê de especialistas para conduzir a investigação epidemiológica, trabalho que será realizado em conjunto com o Programa Nacional de Imunizações (PNI) e o Instituto Butantan, responsável por analisar e fornecer novos dados às autoridades.
O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, afirmou que as análises sobre os óbitos e reações graves devem ser concluídas no menor prazo possível, embora não tenha estipulado uma data. Ele ressaltou que a continuidade e a expansão do uso da vacina no Brasil dependerão de evidências científicas e do aprofundamento das informações. Kallás defendeu a importância das vacinas para a expectativa de vida da população e pontuou que efeitos colaterais podem ocorrer em qualquer produto, inclusive em outros imunizantes historicamente aprovados.
Para quem já recebeu a dose, a orientação é de que não há motivo para preocupação. No entanto, pessoas vacinadas nos últimos 21 dias devem monitorar a saúde e procurar as secretarias locais caso apresentem sintomas como febre, tontura, sonolência intensa, irritabilidade, sinais de desidratação, piora do estado geral, além de dores abdominais contínuas e vômitos.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reiterou a confiança na capacidade científica do Butantan para conduzir a investigação, mencionando que a suspensão foi uma recomendação consensual do Comitê de Farmacovigilância Nacional. Tanto o Ministério quanto o Instituto Butantan enfatizam que a interrupção temporária não invalida a eficácia da vacina, que registrou 79,6% de eficácia global e 89% contra a dengue grave em estudos internacionais, além de ter apresentado resultados positivos em vacinações de massa em Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG).