Brasil terá vacina contra o vírus sincicial respiratório no SUS para gestantes em 2025
A vacinação gestacional transfere anticorpos via IgG para proteger o feto, com a vacina dTpa recomendada a partir da 20ª semana e a do VSR a partir da 28ª. Em 2024, o Brasil teve o maior índice de coqueluche desde 1990, com 24 mortes de bebês filhos de mães não vacinadas. A desinformação reduz a adesão a imunizantes, especialmente a da covid-19
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A transferência de anticorpos da mãe para o feto durante a gestação é um mecanismo biológico essencial que garante a sobrevivência do recém-nascido nos primeiros meses de vida. Esse processo ocorre por meio da imunoglobulina-G (IgG), o único anticorpo capaz de atravessar a placenta graças ao receptor FcRn, que atua como um filtro seletivo entre o sangue materno e o fetal.
Enquanto a imunoglobulina-M (IgM) é grande demais para essa passagem e a IgA chega ao bebê apenas via leite materno para proteger as mucosas, a IgG é transportada ativamente, intensificando-se na segunda metade da gravidez. Em alguns casos, pouco antes do parto, o bebê pode concentrar mais anticorpos do que a própria mãe.
O impacto da vacinação gestacional na saúde neonatal
A vacinação durante a gravidez permite que a mulher fabrique defesas específicas para proteger o filho. No Brasil, a vacina dTpa (contra difteria, tétano e coqueluche) é recomendada a partir da 20ª semana para garantir que haja tempo hábil para a produção e transferência desses anticorpos.
A negligência nessa proteção tem gerado consequências graves. Em 2024, o Brasil registrou o maior índice de incidência de coqueluche desde 1990. Desse total, 29 bebês com menos de um ano morreram, sendo que 24 eram filhos de mães não vacinadas. Esse aumento é atribuído a ciclos naturais da doença, à queda na cobertura vacinal agravada pela pandemia e à ampliação dos testes de PCR.
Outro avanço recente é a inclusão, em dezembro de 2025, da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) no SUS. O imunizante, que antes custava até R$ 1.760 na rede privada, é administrado a partir da 28ª semana para prevenir a bronquiolite grave. A doença matou 537 crianças menores de um ano no Brasil em 2024. A adesão a essa nova vacina já beira os 85%, impulsionando também a cobertura de vacinas contra a gripe e a coqueluche.
Riscos para a gestante e vulnerabilidades
A imunização não beneficia apenas o feto; ela é crucial para a saúde da mulher. Gestantes apresentam um risco quatro vezes maior de hospitalização por influenza, risco que cresce conforme a gravidez avança, especialmente em mulheres com diabetes ou cardiopatias.
Durante a pandemia de covid-19, a vulnerabilidade foi ainda mais acentuada. Dados do Observatório Covid-19 Fiocruz indicam que gestantes fatais tiveram uma chance 337% maior de hospitalização e 73% de chance de internação em UTI em comparação a mulheres em idade fértil não gestantes. Além disso, o Brasil registrou um aumento de 40% nos óbitos maternos em 2020. Para o bebê, a infecção materna por coronavírus elevou a taxa de natimortos para 8,5 a cada mil nascimentos, contra 3,4 em casos sem a doença.
Existem, porém, limitações biológicas nesse processo. Bebês prematuros nascem com menor quantidade de anticorpos maternos devido ao tempo reduzido de transferência placentária, exigindo suporte intensivo em UTIs neonatais. Já gestantes com doenças autoimunes, como lúpus, podem apresentar sobrecarga no filtro placentário devido ao excesso de anticorpos.
Barreiras e desinformação
Apesar da disponibilidade de imunizantes, a desinformação é o principal obstáculo para a cobertura ideal. A vacina contra a covid-19 possui a menor adesão entre gestantes no calendário nacional, com uma diferença de 27 pontos percentuais em relação à dTpa e ao VSR.
O Brasil ocupa a terceira posição mundial na produção de boatos sobre a vacina de covid-19, atrás apenas de EUA e Índia. Entre janeiro de 2024 e março de 2025, a Agência Lupa identificou 33 conteúdos enganosos, incluindo a falsa afirmação de que vacinas de RNA mensageiro estariam sendo retiradas do mercado.
Outros medos comuns incluem a suspeita de que a vacina causaria prematuridade — hipótese descartada por dados de segurança da OMS — ou que transmitiriam a doença ao bebê. No entanto, as quatro vacinas recomendadas (dTpa, gripe, VSR e covid-19) não utilizam microrganismos vivos, sendo compostas por proteínas ou versões inativadas.
A desconfiança global também é alimentada por uma exclusão histórica de gestantes em ensaios clínicos iniciais, o que gerou lacunas de dados. Atualmente, a ciência busca aprofundar a compreensão sobre a duração dos anticorpos transferidos e o fenômeno blunting, que ocorre quando a alta carga de anticorpos maternos reduz a resposta do bebê às suas próprias vacinas futuras.