Carência nutricional é responsável por cerca de 50 mil mortes anuais na Alemanha
A carência nutricional causa cerca de 50 mil mortes anuais na Alemanha, segundo a Sociedade Alemã de Medicina Nutricional. O problema, chamado de fome oculta, atinge dois bilhões de pessoas no mundo devido ao consumo de calorias sem nutrientes essenciais. Na Alemanha, um terço da população apresenta deficiência de vitamina D ou de iodo
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A carência nutricional é responsável por cerca de 50 mil mortes anuais na Alemanha, segundo a Sociedade Alemã de Medicina Nutricional (DGEM). O problema é frequentemente silencioso, manifestando-se apenas quando as consequências da alimentação inadequada já atingiram níveis graves.
De acordo com o médico Matthias Pirlich, especialista em nutrição e medicina interna, deficiências severas de vitamina D ou vitamina B12 podem persistir por meses sem apresentar sintomas iniciais. Quando os sinais surgem, como danos nos nervos, a reversão dos danos pode ser inviável. No caso da vitamina B12, a falta prolongada pode comprometer a medula espinhal, resultando em fraqueza muscular, dormência nos membros ou paralisia, além de possíveis distúrbios psicológicos e de memória decorrentes de danos cerebrais.
Fome oculta e desnutrição
Enquanto a subnutrição ocorre quando a ingestão calórica é insuficiente para as funções corporais — afetando aproximadamente 645 milhões de pessoas globalmente, conforme a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) —, a carência nutricional caracteriza-se pela ingestão de calorias suficientes, mas com a ausência de macronutrientes ou micronutrientes.
Esse fenômeno, conhecido como fome oculta, atinge cerca de dois bilhões de pessoas no mundo, concentradas principalmente no Sul Global, mas também presentes em nações industrializadas. A condição é impulsionada por dietas ricas em calorias "vazias", como arroz branco, pão branco, fast-food e alimentos ultraprocessados, que saciam a fome, mas não nutrem.
Dados oficiais revelam a amplitude do problema em países desenvolvidos:
- Estados Unidos: Entre 2007 e 2010, quase 75% da população não atingiu a recomendação diária de vitamina D e mais de dois terços ficaram abaixo do nível de vitamina E.
- Alemanha: Em 2017, um terço da população apresentava deficiência de vitamina D, o que eleva o risco de fraturas, quedas e dores musculares e articulares. Outro terço da população alemã consumia iodo insuficiente, nutriente vital para a tireoide e essencial para o desenvolvimento do sistema nervoso e cerebral de fetos durante a gestação.
Fatores de risco e causas sistêmicas
A vulnerabilidade socioeconômica é um fator determinante, pois famílias pobres tendem a consumir alimentos de alta densidade calórica e baixo valor nutritivo. Além da questão financeira, a depressão pode levar à perda de apetite e a dietas desequilibradas. Idosos, pessoas que vivem sozinhas e pacientes que utilizam múltiplos medicamentos também apresentam maior risco.
No campo agrícola, a seleção de variedades de grãos, frutas e verduras focada em rendimento ou durabilidade pode reduzir o teor de micronutrientes, embora o impacto real na saúde humana ainda seja objeto de debate.
Impacto no sistema hospitalar
A carência nutricional agrava a situação de pacientes internados. A DGEM estima que 30% dos hospitalizados na Alemanha sofram ou estejam em risco de deficiência nutricional, mas apenas 1% é diagnosticado e tratado, segundo seguradoras de saúde.
Essa negligência resulta em:
- Atraso na cicatrização de feridas;
- Aumento de complicações e da mortalidade;
- Prolongamento do tempo de internação;
- Custos bilionários anuais para o sistema de saúde.
Para reverter esse cenário, entidades médicas alemãs planejam criar, até 2027, um protocolo de identificação e tratamento hospitalar, inspirando-se no modelo da Holanda, onde a triagem nutricional é sistemática na admissão. Matthias Pirlich sugere que essa triagem seja estendida a idosos e portadores de doenças crônicas em atendimentos ambulatoriais.
Prevenção e orientações alimentares
Para combater a desnutrição ligada à pobreza, a implementação de merendas escolares gratuitas é apontada como uma solução viável. Atualmente, na Alemanha, a gratuidade varia por estado; em Berlim é gratuita, enquanto em outras regiões depende de subsídios ou pagamento pelos pais.
Para a manutenção da saúde, a recomendação é priorizar uma alimentação variada e baseada em vegetais, rica em fitoquímicos. As orientações práticas incluem:
- Diversidade de cores: Pratos mais coloridos indicam maior variedade nutricional.
- Preparo suave: Evitar o superaquecimento e a exposição prolongada a altas temperaturas para não destruir as vitaminas.
- Sazonalidade: Priorizar produtos regionais e da estação, evitando o armazenamento prolongado que reduz o valor vitamínico.
Em casos onde a dieta não é suficiente, a detecção da carência pode ser feita via exame de sangue, permitindo a correção por meio de suplementos alimentares.