Saúde

Casos de doenças inflamatórias intestinais no Brasil cresceram mais de cinco vezes em dez anos

25 de Setembro de 2026 às 12:00 4 min de leitura

A prevalência de doenças inflamatórias intestinais no Brasil subiu de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, segundo estudo com pacientes do SUS. A incidência anual passou de 9,35 para 12,34 casos no mesmo período, com maior concentração no noroeste de São Paulo e Paraná

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Casos de doenças inflamatórias intestinais no Brasil cresceram mais de cinco vezes em dez anos
M. Schaubeck/TUM

Casos de doenças inflamatórias intestinais (DII) no Brasil apresentaram um crescimento superior a cinco vezes em pouco mais de uma década. De acordo com um estudo apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC), a prevalência dessas condições saltou de 30 para 158 casos a cada 100 mil habitantes entre 2012 e 2025.

A pesquisa analisou 337.539 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e identificou que a incidência — o volume de novos diagnósticos anuais — subiu de 9,35 para 12,34 casos por 100 mil pessoas no mesmo período. Os autores notaram que, a partir de 2018, o ritmo de novos diagnósticos acelerou, embora a causa exata dessa mudança de curva ainda não tenha sido determinada.

Projeções e cenário epidemiológico

Modelos estatísticos indicam que a tendência de alta deve persistir. A estimativa é que, até 2035, a prevalência atinja 264 casos por 100 mil habitantes, o que representa um aumento de 67% em relação aos dados de 2025. A incidência também pode subir para 22,7 novos casos por 100 mil pessoas, nível similar ao observado atualmente em algumas nações europeias.

O estudo ressalta que os números reais podem ser ainda maiores, pois a base de dados considera apenas o SUS. Embora alguns usuários de planos de saúde utilizem a rede pública para acessar medicamentos biológicos, aqueles que realizam todo o tratamento via convênio não foram contabilizados.

Fatores de risco e distribuição regional

A incidência de DII é desigual no território brasileiro. As regiões Norte e Nordeste apresentam índices menores, o que pode ser reflexo de subnotificação e dificuldades de acesso ao diagnóstico. Em contrapartida, as áreas de maior concentração de casos estão no noroeste de São Paulo e no noroeste do Paraná.

A hipótese levantada pelos pesquisadores é que a forte presença do agronegócio nessas regiões, com a consequente exposição a agrotóxicos e à poluição gerada por queimadas de cana-de-açúcar, possa influenciar o surgimento da doença.

Além dos fatores regionais, a urbanização e a adoção de hábitos ocidentais, especialmente o consumo de alimentos ultraprocessados, são apontadas como causas. Acredita-se que aditivos e conservantes presentes em produtos industrializados reduzam a diversidade da microbiota intestinal. O componente genético é relevante em apenas 30% dos casos, indicando que o ambiente desempenha um papel decisivo.

Diferenças entre as patologias e diagnóstico

As DII englobam a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, ambas condições crônicas e sem cura que causam inflamação no trato digestivo. O estudo observou que a retocolite cresceu mais rapidamente, passando de 1,5 para 2,1 casos para cada caso de Crohn entre 2012 e 2025. Essa tendência aproxima o Brasil do padrão sul-americano e o afasta do equilíbrio observado na Europa.

Enquanto a doença de Crohn pode afetar qualquer parte do tubo digestivo, a retocolite ulcerativa limita-se ao intestino grosso. Os principais sinais de alerta incluem:

  • Sangue nas fezes;
  • Perda de peso;
  • Diarreia.

A confirmação diagnóstica é feita via colonoscopia, mas o processo é lento. Dados da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn revelam que o paciente leva, em média, de três a quatro anos para ser diagnosticado, com atrasos ainda maiores em estados como o Amazonas.

Impactos no tratamento e economia

O objetivo do tratamento é a remissão clínica, controlando a inflamação e os sintomas. Em quadros graves, utilizam-se medicamentos biológicos, cujo custo anual pode chegar a R$ 500 mil. O diagnóstico precoce é fundamental: pacientes identificados cedo tendem a ter expectativa de vida normal. Já no caso da doença de Crohn, metade dos pacientes precisará de ao menos uma cirurgia ao longo da vida.

O avanço acelerado das DII gera pressão econômica sobre o SUS e as operadoras de saúde, devido à necessidade de acompanhamento multidisciplinar, exames de colonoscopia regulares e o alto custo das terapias.

O estudo foi financiado pelos próprios autores, sem aportes da indústria farmacêutica.

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