Casos globais de anorexia e bulimia cresceram 21% entre 1990 e 2023
Casos de anorexia e bulimia cresceram 21% entre 1990 e 2023, atingindo 18,1 milhões de pessoas globalmente em 2023. O público feminino e a faixa etária de 10 a 24 anos são os mais afetados, com crescimento acelerado na Ásia. No Brasil, estima-se que 11 milhões de pessoas apresentem comportamentos alimentares anormais
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O aumento global de casos de anorexia e bulimia reflete a pressão por padrões estéticos irreais, intensificada por algoritmos de redes sociais. Um estudo do projeto Carga Global de Doenças, que analisou 204 países entre 1990 e 2023, revelou que a prevalência desses transtornos cresceu cerca de 21%, mesmo considerando o envelhecimento e o tamanho da população. Em 2023, as estimativas apontam que 14,2 milhões de pessoas conviviam com a bulimia e 3,9 milhões com a anorexia.
A predominância feminina é marcante, representando quase 70% dos casos. A faixa etária mais afetada situa-se entre 10 e 24 anos, com picos de prevalência entre 15 e 19 anos para a anorexia e entre 30 e 34 anos para a bulimia. Embora as taxas sejam mais altas em regiões como Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia, o crescimento mais acelerado ocorreu na Ásia.
A distorção da imagem corporal e a influência digital
A insatisfação com a aparência é um gatilho central para quadros psiquiátricos onde a obsessão pelo peso compromete a saúde. Um exemplo recente dessa dinâmica ocorreu com Carol Alves, nutricionista especializada em comportamento alimentar e estudante de psicologia. Ao questionar em um vídeo a tendência de classificar mulheres que vestem manequim 38 ou 40 como "corpos médios" (mid-size) ou gordas, a profissional foi alvo de ataques que chegavam a atribuir a ela a obesidade de grau 1, apesar de seus exames de rotina, peso e percentual de gordura estarem normais.
Para a especialista, a confusão entre a característica física de ser gorda e o diagnóstico clínico de obesidade evidencia a distorção da realidade de quem emite tais julgamentos. O impacto desse cenário extrapola as redes: no consultório, Carol observa o retorno expressivo de casos de compulsão alimentar, bulimia e anorexia, inclusive em mulheres já magras que buscam emagrecer ainda mais.
A psiquiatra Ana Clara Floresi, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, explica que a pressão pela magreza ocorre em ondas. Se nos anos 1950 o padrão era curvilíneo, as décadas seguintes consolidaram a magreza extrema. Atualmente, o algoritmo das redes sociais potencializa o problema ao entregar conteúdos de corpos filtrados e artificiais, criando comunidades de comparação e desafios de perda de peso que substituíram os antigos fóruns anônimos.
Precocidade e riscos terapêuticos
Houve uma mudança drástica na idade de início dos transtornos. Enquanto a anorexia surgia tipicamente aos 16 anos e a bulimia aos 20, há registros atuais de casos em crianças de 10, 12 e até 5 anos. Diante disso, a recomendação médica é evitar a exposição de crianças às redes sociais até os 16 anos.
Outro ponto de atenção são as canetas emagrecedoras. Quando usadas por quem não possui obesidade para perda de peso estética, essas medicações tornam-se comportamentos de risco. Na anorexia, não há indicação de uso; na bulimia, a segurança não foi avaliada. A revisão dos critérios diagnósticos já lista esses medicamentos como práticas compensatórias, similar ao que ocorria com as anfetaminas.
Diagnóstico e a carência de assistência no Brasil
A detecção precoce depende da observação de sinais como:
- Isolamento social e irritabilidade;
- Desculpas para evitar refeições;
- Exercícios físicos obsessivos;
- Idas frequentes ao banheiro após comer;
- Estoques de comida escondidos ou uso de remédios incomuns.
O tratamento exige a combinação de psicoterapia, recuperação nutricional feita por especialistas em transtornos alimentares e, no caso de adolescentes, terapia familiar.
No entanto, a rede de apoio no Brasil é insuficiente. Em audiência no Senado em 2024, o psiquiatra Táki Cordás, do Hospital das Clínicas, alertou que o país possui apenas 15 centros públicos especializados. A América Latina conta com apenas uma enfermaria dedicada ao tema, localizada no próprio hospital da USP. Estima-se que cerca de 11 milhões de brasileiros (5% da população) apresentem comportamentos alimentares anormais.
Com a projeção de 21,8 milhões de casos globais até 2050, pesquisadores defendem que a detecção estruturada em escolas e na atenção primária seja integrada aos planos nacionais de saúde mental.