Cirurgia inédita nos Estados Unidos corrige defeito congênito em feto antes do nascimento
Cirurgiões do Hospital Infantil do Texas corrigiram a gastrosquise complexa de um feto durante a 26ª semana de gestação. O procedimento experimental envolveu a aplicação de Botox na Bélgica e a recolocação dos órgãos abdominais via cirurgia minimamente invasiva. O bebê nasceu em fevereiro após a intervenção
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Um procedimento cirúrgico inédito realizado nos Estados Unidos permitiu a correção de um defeito congênito em um feto antes mesmo do nascimento. O paciente, Theo, nasceu com gastrosquise complexa, uma malformação grave em que a parede abdominal não se fecha totalmente, resultando no desenvolvimento dos intestinos fora do abdômen.
A intervenção ocorreu quando a mãe, Maisie Savage, estava com 26 semanas de gestação. O caso integrou um estudo clínico pioneiro conduzido no Hospital Infantil do Texas, em Houston, sob a liderança do médico Michael Belfort. Theo foi o terceiro bebê no mundo a ser submetido a esse protocolo experimental.
O protocolo cirúrgico e a preparação
Para viabilizar a operação, a família, residente em Londres, passou por etapas preparatórias em diferentes países. Inicialmente, Savage foi encaminhada ao Hospital de Leuven, na Bélgica, onde o feto recebeu uma aplicação de Botox na parede abdominal via útero, visando relaxar a musculatura para facilitar a posterior correção.
Já no Texas, a equipe médica adotou a seguinte técnica:
- Exposição parcial do útero materno para o posicionamento do feto;
- Drenagem do líquido amniótico;
- Preenchimento do útero com dióxido de carbono (CO₂) para ampliar o espaço cirúrgico;
- Recolocação dos órgãos no abdômen por meio de cirurgia minimamente invasiva, finalizando com suturas.
A recuperação de Savage foi marcada por dores causadas pelos movimentos do bebê sobre a cicatriz da operação, que resultou em uma marca duas vezes maior que a de uma cesariana convencional. A gestação prosseguiu por mais 14 semanas, culminando no nascimento de Theo em fevereiro, via parto normal.
Riscos da gastrosquise e impacto do tratamento
A gastrosquise afeta aproximadamente 1 em cada 3 mil nascimentos no Reino Unido anualmente. Em quadros favoráveis, os recém-nascidos demandam semanas de UTI neonatal, nutrição intravenosa ou por sonda e cirurgias corretivas após o parto.
No entanto, em casos complexos como o de Theo, os riscos são significativamente maiores:
- Internações em UTI neonatal que podem chegar a seis meses;
- Necessidade de alimentação intravenosa por até dois anos;
- Possibilidade de múltiplas cirurgias e até transplante de intestino;
- Taxa de mortalidade de 10%, mesmo com assistência médica de alta qualidade.
Perspectivas para a medicina fetal
O sucesso do procedimento abre caminho para a expansão da técnica. Paolo de Coppi, professor de cirurgia pediátrica do Great Ormond Street Hospital e diretor de pesquisa na University College London, planeja implementar a cirurgia no Reino Unido caso o estudo clínico seja validado.
A colaboração entre as instituições de Londres e Houston visa criar um centro de excelência em cirurgia fetal. De acordo com Michael Belfort, a inovação dentro do útero pode, futuramente, abranger a correção de anomalias cardíacas e pulmonares em fetos, expandindo a fronteira de tratamentos que já incluem a correção de espinha bífida.