Saúde

Colombiana pede eutanásia após anos de dor por endometriose e diagnóstico tardio

22 de Setembro de 2026 às 12:01 4 min de leitura

A colombiana Melisa Gaona, diagnosticada com endometriose, recorreu à Justiça após ter um pedido de eutanásia negado por uma junta médica em Bogotá. A paciente realizou a cirurgia para a retirada de focos da doença no final de 2025 e fundou a FECCUM para reduzir o tempo de diagnóstico da enfermidade

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Colombiana pede eutanásia após anos de dor por endometriose e diagnóstico tardio
Arquivo Pessoal

A luta de Melisa Gaona, colombiana de 26 anos, expõe as lacunas no diagnóstico e tratamento da endometriose, doença inflamatória crônica que afeta cerca de 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva globalmente. Após anos de sofrimento intenso que comprometeu funções básicas como comer, urinar e caminhar, a jovem chegou a formalizar um pedido de eutanásia em 2025, alegando a perda da dignidade devido à dor insuportável.

O pedido foi negado por uma junta médica em Bogotá, sob a justificativa de que a paciente não havia esgotado todas as alternativas terapêuticas, incluindo intervenções cirúrgicas. Na Colômbia, a legislação permite a morte assistida para casos de sofrimento intenso e irreversível, mesmo para pacientes que não estejam em fase terminal. Com o apoio do DescLAB, organização que defende a morte digna, Melisa recorreu à Justiça por meio de uma ação de tutela.

O desafio do diagnóstico tardio

A trajetória de Melisa reflete um padrão comum na saúde feminina. Embora os sintomas tenham surgido na infância e se intensificado aos 10 anos, o diagnóstico formal de endometriose ocorreu apenas em 2024. Durante esse intervalo, a paciente enfrentou diagnósticos equivocados — que variaram de apendicite a transtornos psicológicos — e a minimização de seus sintomas por profissionais de saúde.

Dados do New England Journal of Medicine indicam que o tempo médio entre os primeiros sinais e a confirmação da doença varia de seis a dez anos. A ginecologista Raquel Magalhães destaca que esse atraso é frequente, citando uma média de oito anos para o diagnóstico, dez médicos consultados e quatro cirurgias mal indicadas antes de um tratamento eficaz. A médica ressalta que a naturalização do sofrimento feminino contribui para a demora no atendimento, embora a maioria dos casos apresente melhora significativa com abordagem multidisciplinar e cirurgia adequada.

Impactos da dor crônica e a "morte social"

Para o neurocirurgião Pedro Henrique Cunha, pedidos de morte assistida em casos de dor crônica não terminal muitas vezes não expressam um desejo primário de morrer, mas sim o limite de quem perdeu a autonomia, o sono e os vínculos sociais. Esse estado pode ser agravado pela sensibilização central, processo em que o sistema nervoso amplifica estímulos dolorosos mesmo após o tratamento da causa inicial.

A advogada em bioética Luciana Dadalto diferencia o "sofrimento intolerável" — aquele que persiste após todas as tentativas médicas — do "sofrimento desesperado". Este último, que ela denomina como morte social, ocorre quando a pessoa não encontra condições dignas de vida por falhas no acesso à saúde. Segundo a especialista, a morte assistida não deve ser utilizada como substituta para a ausência de políticas públicas eficientes.

Panorama legal da morte assistida

A Colômbia é referência global no tema, tendo despenalizado a eutanásia em 1997 e descriminalizado o suicídio assistido em 2022. Diferente da eutanásia, onde um profissional administra a substância letal, no suicídio assistido o próprio paciente ingere a medicação.

Outros países adotam critérios distintos:

  • Holanda, Bélgica e Luxemburgo: Permitem a prática em casos de condições graves ou incuráveis com sofrimento insuportável.
  • Nova Zelândia e Oregon (EUA): Restringem o acesso a pacientes terminais com prognóstico de vida inferior a seis meses.
  • Suíça: Proíbe a eutanásia, mas permite a assistência ao suicídio desde que não haja interesse próprio de quem auxilia.

No Brasil, tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido são proibidos.

Recuperação e ativismo

No final de 2025, Melisa conseguiu realizar uma cirurgia para a retirada dos focos de endometriose, financiada por doações e campanhas coletivas, já que o sistema de saúde não proveu o recurso. Embora a dor não tenha sido totalmente eliminada, houve uma melhora significativa em seu quadro.

Atualmente, a jovem fundou a FECCUM (Fundación de Endometriosis Colombia y Cuidado de la Mujer), organização voltada a reduzir o tempo de diagnóstico, informar profissionais de saúde e criar redes de apoio para mulheres que enfrentam a doença.

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