Consumo indiscriminado de suplementos vitamínicos e minerais provoca aumento de complicações hepáticas e renais
O uso indiscriminado de suplementos vitamínicos e minerais tem causado complicações hepáticas, renais e gastrointestinais. Nos Estados Unidos, 20% dos danos ao fígado decorrem de misturas de produtos dietéticos e fitoterápicos. Especialistas recomendam a consulta médica e a priorização de dietas balanceadas para evitar a toxicidade e interações medicamentosas
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O consumo indiscriminado de suplementos vitamínicos e minerais tem provocado um aumento no número de pacientes com complicações hepáticas, renais e gastrointestinais. O cenário é impulsionado por uma busca excessiva pela otimização da saúde, muitas vezes estimulada por publicidades em redes sociais, que leva indivíduos a substituírem a alimentação balanceada por cápsulas e pós.
Dados do grupo de consumidores Which? indicam que 76% dos entrevistados utilizam ao menos um suplemento regularmente, abrangendo vitaminas, minerais, ômega-3, probióticos e ervas. Quase 20% desse grupo consome quatro ou mais produtos diariamente. Nos Estados Unidos, pesquisas apontam que 20% dos casos de danos ao fígado são decorrentes da mistura de suplementos dietéticos e fitoterápicos. Substâncias como vitamina A, glutamina, ashwagandha e extrato de chá verde são identificadas como particularmente tóxicas ao órgão quando ingeridas em altas doses.
A gravidade do uso sem orientação médica é exemplificada pelo caso de Ginger Smith, de 30 anos. A influenciadora digital, residente em Seattle, consumia altas doses de vitamina C, vitamina D, cúrcuma, eletrólitos e suplementos para redução de inchaço. A combinação resultou no desenvolvimento de uma pedra nos rins de dois a três centímetros, exigindo intervenção cirúrgica. Mesmo com plano de saúde, o custo do procedimento foi de 6 mil dólares, valor que poderia chegar a 35 mil dólares sem a cobertura.
No Hospital Universitário La Paz, em Madri, o gastroenterologista Pedro de Maria Pallares observa que muitos pacientes com problemas hepáticos omitem o uso de suplementos ervais ao serem questionados sobre medicamentos, exigindo um processo de eliminação diagnóstica para identificar a causa do dano. No Reino Unido, o British Liver Trust também registra casos de lesão hepática por suplementação excessiva, alertando para a necessidade de avaliar se os benefícios superam os riscos.
A professora Victoria Tzortziou Brown, presidente do Royal College of GPs, ressalta que a ingestão de múltiplos produtos pode causar a duplicação de ingredientes e a superação de doses recomendadas, além de interações perigosas com remédios prescritos. Um exemplo é a combinação de multivitamínicos com suplementos de vitamina B6, que, em excesso e por tempo prolongado, pode causar danos aos nervos. Outras misturas, como ferro, cálcio e magnésio, podem reduzir a absorção dos nutrientes. Além disso, vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) são armazenadas pelo corpo, tornando a ingestão diária desnecessária em muitos casos.
Embora o cirurgião do NHS, Karan Rajan, defenda que suplementos de fibra, proteína, creatina, prebióticos e vitamina D podem ser úteis para suprir deficiências nutricionais — justificando que o solo atual é menos rico em nutrientes do que nas décadas de 1950 —, ele enfatiza que cada produto deve ser encarado com ceticismo até que sua eficácia seja comprovada.
A nutricionista Kristen Stavridis orienta que adultos sem doenças preexistentes priorizem a dieta balanceada, reservando a vitamina D para os meses de inverno e, se necessário, multivitamínicos e óleo de peixe. Para mulheres com deficiência de ferro, a suplementação deve ser breve, apenas até a recuperação dos níveis sanguíneos. A recomendação central é a consulta médica antes de qualquer início de suplementação, a verificação rigorosa das doses recomendadas nos rótulos e a checagem de possíveis conflitos com medicamentos.