Custo elevado de canetas emagrecedoras limita acesso de brasileiros ao tratamento da obesidade
O alto custo de canetas emagrecedoras limita o acesso de brasileiros com obesidade, doença que atinge 25,7% dos adultos no país e não possui esses fármacos no SUS. A Anvisa aprovou novos medicamentos com semaglutida para ampliar a concorrência e reduzir preços, enquanto a tirzepatida mantém valores elevados. A dificuldade financeira impulsiona a busca por produtos no mercado ilegal
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A desigualdade socioeconômica limita o acesso de milhões de brasileiros ao tratamento da obesidade com o uso de canetas emagrecedoras. Embora a tecnologia represente um avanço significativo na perda de peso, o custo elevado afasta a população mais vulnerável, que é a mais afetada pela doença, e impulsiona a busca por medicamentos no mercado ilegal.
Atualmente, 25,7% dos adultos no Brasil convivem com a obesidade, condição que eleva os riscos de desenvolvimento de diabetes, cânceres e complicações cardiovasculares. Apesar da prevalência da doença, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não disponibiliza as canetas emagrecedoras, embora o Ministério da Saúde afirme estar trabalhando para alterar esse cenário.
Eficácia e impacto financeiro
A evolução dos fármacos elevou a eficácia do tratamento. Enquanto medicamentos antigos proporcionavam a redução de 5% a 10% do peso corporal, as tecnologias que simulam o hormônio GLP-1 (como Ozempic e Wegovy) podem atingir 17% de perda. Já a tirzepatida (Mounjaro), que atua nos receptores GLP-1 e GIP, pode chegar a 22% de redução de peso.
Contudo, a eficácia esbarra no orçamento doméstico. Um levantamento da NielsenIQ Brasil indica que esses medicamentos estão presentes em apenas 5% dos lares brasileiros, e, desse grupo, 84% relatam que o custo gera um impacto moderado ou alto nas finanças mensais.
Mercado de genéricos e novas aprovações
A queda da patente da semaglutida abriu caminho para a produção nacional e a redução de preços. Em junho, chegou ao mercado a Ozivy, primeira caneta brasileira com esse princípio ativo, produzida pelo laboratório EMS. Recentemente, a Anvisa aprovou o registro de outros cinco medicamentos baseados em semaglutida.
O Ministério da Saúde solicitou prioridade à Anvisa no registro de fármacos com semaglutida e liraglutida para tratar diabetes tipo 2 e obesidade, apostando que a concorrência dos genéricos reduzirá os preços. Algumas terapias com semaglutida já apresentam queda de até R$ 1 mil mensais.
Em contrapartida, a tirzepatida mantém valores elevados, com mensalidades entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil, pois sua patente deve expirar apenas em cerca de dez anos.
Barreiras sociais e riscos à saúde
A dificuldade financeira cria um paradoxo: a tecnologia é frequentemente utilizada por pessoas sem indicação terapêutica, enquanto pacientes com IMC acima de 30, que necessitam de intervenção medicamentosa, não conseguem arcar com os custos. Além do remédio, o tratamento completo exige dieta e exercícios, o que encarece ainda mais o processo.
A impossibilidade de pagar pelo tratamento regular leva parte da população ao contrabando, especialmente de produtos vindos do Paraguai. A Anvisa condena a prática devido à ausência de garantias sobre a pureza, a composição e as condições de transporte dos fármacos.
O estigma da obesidade
A questão financeira também reflete no aspecto psicossocial. A obesidade é influenciada por fatores ambientais e socioeconômicos, e a popularização de tratamentos caros pode gerar um novo estigma, associando o corpo gordo à falta de recursos financeiros para "comprar" a magreza.
Para os médicos, a escolha do tratamento depende da análise socioeconômica do paciente. Quando as canetas são inviáveis, a alternativa são inibidores de apetite mais baratos. Há ainda o desafio da adesão, já que muitos pacientes desestimulam-se ao descobrir que o uso do medicamento, assim como no caso da hipertensão, pode ser contínuo e vitalício.