Desequilíbrio da microbiota oral pode estar relacionado a doenças cardiovasculares e quadros de depressão
O equilíbrio da microbiota oral influencia a saúde sistêmica, podendo estar associado a doenças cardiovasculares, diabetes e cânceres. A dieta, especialmente o consumo de açúcares, impacta a proliferação de bactérias, enquanto alimentos como alho, queijos e vegetais auxiliam no controle de patógenos. A manutenção desse ecossistema depende de padrões alimentares saudáveis e higiene rigorosa
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A saúde bucal vai muito além da escovação, dependendo diretamente do equilíbrio da microbiota oral. Essa comunidade, composta por vírus, fungos e até 700 espécies de bactérias, exerce influência não apenas nos dentes, mas em diversos sistemas do organismo. Quando negligenciada, a desregulação desses micro-organismos pode estar ligada a quadros de depressão, diabetes, artrite reumatoide, doenças cardiovasculares, Alzheimer, parto prematuro e até cânceres de pâncreas e cólon.
O impacto das bactérias na saúde sistêmica
A relação entre a boca e o corpo é evidenciada por patógenos como a P. gingivalis, causadora de gengivite e associada a riscos cardíacos e inflamações intestinais. Pesquisas nos Estados Unidos indicaram que a presença de leveduras Candida ou bactérias ligadas à degradação dentária na saliva pode elevar a probabilidade de desenvolvimento de câncer no pâncreas.
No cenário oposto, a diversidade microbiana é um indicador de bem-estar. Enquanto a baixa variedade de micróbios orais foi associada à depressão, a presença de bactérias benéficas — como Veillonella, Actinomyces e Neisseria — impede que linhagens patogênicas colonizem a região.
Alimentos que combatem cáries e inflamações
A dieta é o principal fator de controle da microbiota. O consumo de açúcares e carboidratos processados (como bolachas, pães brancos, bolos e pretzels) alimenta a bactéria Streptococcus mutans. Este micro-organismo converte o açúcar em ácidos que destroem o esmalte dentário, resultando em cáries, condição que atinge mais de 80% dos americanos ao chegarem aos 35 anos.
Para contrapor esse processo, certos alimentos atuam como aliados:
- Alho: a substância alicina combate bactérias responsáveis por cáries e gengivite.
- Queijos: o consumo de queijo Grana Padano demonstrou reduzir a S. mutans e aumentar a S. sanguinis, típica de bocas saudáveis. Além disso, a neutralidade da saliva ao processar o queijo atenua a acidez bucal.
- Alimentos fermentados: o kefir inibe patógenos orais e impede a formação de biofilmes pegajosos.
- Mel: rico em polifenóis, auxilia no combate às bactérias cariogênicas e evita a placa.
O papel dos polifenóis e nitratos
Vegetais e frutas ricas em polifenóis — antioxidantes naturais — inibem enzimas que tornam a placa bacteriana rígida. O chá, por exemplo, suprime bactérias causadoras de gengivite e mau hálito. Da mesma forma, o suco de cranberry inibe a placa e doenças periodontais.
Já vegetais como espinafre, couve kale, beterraba e rabanete fornecem nitratos. Na boca, as bactérias Neisseria transformam esses nitratos em nitritos que, ao chegarem ao intestino, tornam-se ácido nítrico. Essa substância circula no sangue e auxilia na redução da pressão arterial, beneficiando a saúde cardiovascular.
Padrões alimentares e higiene
Não existe um "superalimento" isolado, mas sim a eficácia de um padrão alimentar. A dieta mediterrânea, baseada em grãos integrais, frutas, legumes e gorduras saudáveis, está associada a casos de gengivite mais leves. Em contrapartida, o consumo frequente de carne vermelha pode favorecer a P. gingivalis, agravando a inflamação gengival.
Para a manutenção do ecossistema oral, as recomendações incluem:
- Substituir carboidratos refinados por alimentos vegetais integrais e fibras.
- Limitar a ingestão de bebidas doces e açúcares refinados.
- Manter a higiene rigorosa com escovação de dentes e língua, além do uso de fio dental, que reduz a concentração de S. mutans.
Quanto aos produtos químicos, enxaguantes com clorexidina devem ser usados apenas a curto prazo para tratamentos específicos, pois podem prejudicar o equilíbrio natural dos micróbios orais.