Saúde

Desigualdade no acesso a terapias de precisão reduz sobrevida de pacientes com câncer no SUS

01 de Julho de 2026 às 09:07

Estudos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica indicam que a sobrevida de pacientes com câncer de pulmão e alteração no gene ALK é de 61% no SUS e 87% na rede privada. A diferença ocorre pelo acesso desigual a exames genéticos e medicamentos de precisão, como o alectinibe. O Ministério da Saúde prevê a disponibilização gradual de 23 fármacos oncológicos de alto custo a partir de outubro

Desigualdade no acesso a terapias de precisão reduz sobrevida de pacientes com câncer no SUS
Freepik

A disparidade no acesso a terapias de precisão para o câncer de pulmão no Brasil reflete diretamente na sobrevida de pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em comparação aos beneficiários de planos de saúde privados. Dois estudos realizados pelo Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), publicados na revista científica *JCO Global Oncology* da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), revelam que a desigualdade começa no diagnóstico e se aprofunda durante o tratamento.

O foco das pesquisas foi a alteração no gene ALK, um defeito genético presente em cerca de 5% dos casos de câncer de pulmão no Brasil, incidindo principalmente em jovens e não fumantes. Para essa condição, existem medicamentos em comprimido que atacam especificamente as células doentes, oferecendo maior eficácia e menos efeitos colaterais que a quimioterapia convencional.

A primeira barreira identificada é a detecção da alteração genética. Enquanto 94% dos médicos da rede privada possuem acesso rotineiro ao exame necessário, esse índice cai para 44% no SUS. A dificuldade é atribuída à falta de reembolso para hospitais públicos e a amostras de biópsias insuficientes. Em muitos casos, a urgência do quadro leva ao início da quimioterapia antes mesmo da conclusão da análise genética. Como consequência, apenas 20% dos pacientes com a alteração do gene ALK identificados em 12 hospitais brasileiros pertenciam ao SUS, apesar de o sistema público atender aproximadamente 75% da população.

No estágio do tratamento, a distância entre as redes aumenta. O alectinibe, referência atual para esse tipo de tumor, é disponível para 80% dos pacientes da rede privada desde o início do processo. No SUS, quase nenhum médico relatou acesso rotineiro a fármacos modernos da mesma classe. Mesmo o crizotinibe, incorporado ao sistema público em 2022, foi citado como opção inicial por apenas 10% dos médicos da rede pública.

Embora o governo tenha reconhecido a eficácia dessas terapias — incorporando o crizotinibe em 2022 e prevendo o brigatinibe para 2025 —, existe um entrave financeiro. O valor repassado pelo SUS aos hospitais não cobre o custo real dos medicamentos, levando as instituições públicas a optarem pela quimioterapia, que é mais barata, porém menos indicada para esses casos.

O impacto clínico dessa diferença é severo. Dados de prontuários de mais de 100 pacientes tratados entre 2015 e 2020 mostram que o tempo entre o surgimento dos sintomas e o diagnóstico é mais que o dobro no SUS. Três anos após o diagnóstico, a taxa de sobrevida é de 87% na rede privada, contra 61% no sistema público. Além disso, o período sem recidiva do câncer foi de 40 meses na rede privada, enquanto no SUS esse intervalo foi de apenas 11 meses.

A oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT e autora dos estudos, aponta que o obstáculo central é econômico. Ela destaca que a medicina de precisão visa tratar menos pessoas, porém de forma mais assertiva, e sugere a adoção de modelos de negociação direta com fabricantes ou pagamentos baseados em resultados, como ocorre em outros países. A médica ressalta que a demora da Anvisa, que levou cinco anos a mais que os Estados Unidos para liberar os primeiros remédios dessa classe, também contribuiu para o cenário.

Em resposta, o Ministério da Saúde informou que, a partir de outubro, disponibilizará gradualmente 23 medicamentos oncológicos de alto custo, incluindo o brigatinibe, gefitinibe, erlotinibe e durvalumabe. A pasta afirma que a medida ampliará em 35% a oferta de fármacos na rede pública, beneficiando mais de 112 mil pacientes com custeio integral do Governo Federal. O ministério também destacou a implementação do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco) para unificar protocolos clínicos e reduzir a burocracia no acesso.

Notícias Relacionadas