Saúde

Diagnóstico tardio impulsiona a alta mortalidade por câncer de pâncreas no Brasil

24 de Maio de 2026 às 06:09

O Brasil estima 10.980 novos casos anuais de câncer de pâncreas para o triênio 2023-2025, com alta mortalidade devido ao diagnóstico tardio. Apenas 20% dos pacientes são elegíveis à cirurgia curativa, e a doença apresenta tendência de crescimento em pessoas com até 49 anos

Diagnóstico tardio impulsiona a alta mortalidade por câncer de pâncreas no Brasil
Mariza Tavares

O câncer de pâncreas apresenta um cenário crítico de letalidade no Brasil, com uma estimativa de 10.980 novos casos anuais para o triênio 2023-2025. A alta mortalidade da doença é impulsionada, principalmente, pelo diagnóstico tardio, embora a incidência seja menor do que a de tumores de mama, pulmão e colorretal. Um dado relevante indica a mudança no perfil dos pacientes: enquanto a maioria dos diagnósticos ocorre após os 55 anos, a incidência e a mortalidade em pessoas com até 49 anos tendem a crescer nas próximas décadas, conforme análise de dados do Global Burden of Diseases, Injuries, and Risk Factors Study, que abrange 204 países e territórios.

A complexidade do tratamento reside no fato de que 80% dos casos diagnosticados não permitem intervenção cirúrgica curativa. Apenas 20% dos pacientes são elegíveis à cirurgia, condição restrita a tumores que não atingiram outros órgãos ou invadiram estruturas vasculares. Entre esse grupo operável, apenas 15% apresentam sobrevida superior a cinco anos. O tumor é classificado como irressecável quando envolve ou invade vasos sanguíneos vitais, como a veia porta e a artéria mesentérica, a menos que seja possível realizar a reconstrução do vaso com próteses ou emendas.

A detecção precoce é dificultada pela ausência de sintomas claros. Quando o tumor se localiza na cabeça do pâncreas, onde passa a via biliar, pode surgir a icterícia — caracterizada por urina escura, olhos amarelados e alteração nas fezes —, o que constitui uma emergência médica. Já lesões no corpo ou na cauda do órgão manifestam sinais vagos, como emagrecimento sem causa aparente, inapetência, mal-estar digestivo ou dores nas costas, frequentemente confundidas com problemas de coluna. Devido à agressividade da doença, um atraso de três meses no diagnóstico pode anular a janela de oportunidade para o tratamento.

A dificuldade de visualização ocorre porque 90% dos casos originam-se de Neoplasias Intraepiteliais Pancreáticas (PanIN), alterações microscópicas nas células dos ductos do órgão que não formam nódulos visíveis em tomografias ou ressonâncias, sendo identificadas apenas por patologistas via biópsia ou cirurgia. Os 10% restantes dos casos surgem de cistos, especificamente as Neoplasias Mucinosas Papilares Intraductais (IPMN). Estas são visíveis em exames de imagem e representam a única lesão prevenível, podendo ser monitoradas e removidas.

De acordo com o Consenso Internacional de Fukuoka, a conduta para cistos pancreáticos varia conforme a localização e o tamanho. No ducto principal, dilatações acima de 1 cm são consideradas de alto risco, enquanto as entre 0,5 cm e 1 cm são preocupantes. Em ductos secundários, a atenção é necessária se a lesão tiver mais de 3 cm, contiver componente sólido ou crescer mais de 5 mm por ano. O critério central de preocupação é o crescimento da lesão, exigindo acompanhamento médico regular.

Quanto aos fatores de risco, apenas 10% dos casos possuem origem genética, sendo indicado o rastreamento semestral para pacientes com dois ou mais parentes de primeiro grau diagnosticados. Entre os fatores ambientais, destacam-se a obesidade, o tabagismo e o consumo de álcool. O abuso prolongado de bebidas alcoólicas pode causar pancreatite crônica, que promove a fibrose do órgão e eleva em até 20 vezes a chance de desenvolver o câncer. Além disso, a literatura médica aponta a influência de dietas ricas em alimentos ultraprocessados, embora sem validação científica definitiva.

No campo terapêutico, a mortalidade operatória em centros de referência caiu de 50%, na década de 1940, para menos de 1% atualmente. A técnica cirúrgica, combinada a reconstruções vasculares, atingiu seu limite de radicalidade. O protocolo atual exige quimioterapia complementar após a operação, podendo ser indicada também antes do procedimento. As principais inovações agora concentram-se na oncologia clínica, com o desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterapia e vacinas terapêuticas em centros de pesquisa internacionais.

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