Dispositivos vestíveis auxiliam mulheres a identificarem sinais precoces de gravidez por meio de dados biométricos
Mulheres utilizam smartwatches e anéis inteligentes para identificar sinais precoces de gravidez e perdas gestacionais via dados biométricos, como a temperatura corporal. No Reino Unido, o uso de wearables atingiu 36% dos adultos em janeiro de 2026. Especialistas alertam que a falta de pesquisas sobre a precisão desses dispositivos pode elevar a ansiedade das usuárias
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Dispositivos de monitoramento de saúde, como smartwatches e anéis inteligentes, estão sendo utilizados por mulheres para identificar sinais precoces de gravidez, muitas vezes antes mesmo do atraso menstrual. A tecnologia baseia-se na coleta de dados biométricos que indicam alterações fisiológicas típicas do início da gestação.
Um dos principais indicadores é a temperatura corporal. Em um ciclo menstrual comum, a temperatura permanece elevada até pouco antes da menstruação, momento em que sofre uma queda brusca. No entanto, no início de uma gravidez, a temperatura tende a continuar alta, permitindo que dispositivos com sensores térmicos detectem essa anomalia.
O impacto dos dados biométricos na experiência da gestação
A advogada Ravika, de 34 anos, residente na Inglaterra, percebeu a possibilidade de estar grávida após seu anel inteligente, da marca Oura, emitir alertas de baixa pontuação de saúde. Os dados mostravam batimentos cardíacos acelerados, temperatura elevada e redução da variabilidade da frequência cardíaca (HRV), embora ela não apresentasse sintomas físicos imediatos.
Após consultar comunidades online onde outras mulheres relatavam experiências semelhantes, Ravika realizou um teste de gravidez que resultou em positivo, duas semanas após os primeiros alertas do dispositivo. Durante a espera por exames médicos para confirmar a viabilidade da gestação, a paciente relatou que a verificação constante das estatísticas tornou-se uma obsessão, gerando quadros de ansiedade severa.
Outros relatos, como o de Sofia, de 32 anos, indicam que a tecnologia também tem sido usada para prever a perda gestacional. Sofia identificou a queda da temperatura corporal via aplicativo em duas ocasiões de aborto espontâneo, o que a preparou psicologicamente para o evento. Posteriormente, ela utilizou a mesma ferramenta para confirmar uma nova gravidez saudável, embora tenha optado por remover o anel durante o primeiro trimestre para reduzir a ansiedade.
Mercado e confiabilidade tecnológica
O uso de wearables (dispositivos vestíveis) cresceu significativamente no Reino Unido. Dados do instituto YouGov apontam que, em janeiro de 2026, 36% dos adultos britânicos utilizavam esse tipo de tecnologia, volume quase duas vezes maior do que o registrado em julho de 2019. Atualmente, a empresa americano-finlandesa Oura lidera o mercado de anéis inteligentes, competindo com marcas como a indiana Ultrahuman e a RingConn, de Hong Kong.
Apesar da popularidade, especialistas alertam para os riscos do uso indiscriminado desses dados. Stuart Lavery, consultor de medicina reprodutiva do University College Hospital de Londres, afirma que a busca por informações precoces é compreensível, mas ressalta que a falta de pesquisas robustas sobre a confiabilidade desses dispositivos pode elevar drasticamente os níveis de ansiedade dos usuários. Lavery defende que a tecnologia deveria vir acompanhada de avisos claros sobre a precisão dos dados.
Orientação médica e suporte
A diretora clínica de saúde da mulher da Oura, Chris Curry, argumenta que a gravidez é naturalmente um período de incertezas. A empresa orienta que, caso as usuárias se sintam sobrecarregadas pelas informações, interrompam o uso do aplicativo, mantendo apenas a coleta de dados pelo anel. Curry enfatiza que o dispositivo deve ser encarado como uma ferramenta de apoio, e jamais como um substituto para a assistência médica.
No caso de Ravika, que sofreu um aborto espontâneo, a experiência resultou na decisão de não utilizar o monitoramento biométrico em futuras tentativas de engravidar, visando preservar a saúde mental.