Doenças bucais são a condição de saúde mais prevalente na América Latina e no Caribe
Doenças bucais atingiram 308,2 milhões de pessoas na América Latina e Caribe em 2023, representando 53,7% das enfermidades da região. O estudo do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde registrou 2,41 milhões de anos vividos com incapacidade, com destaque para o edentulismo
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As doenças bucais consolidaram-se como a condição de saúde mais prevalente na América Latina e no Caribe, mantendo essa posição há pelo menos três décadas. Em 2023, a soma de casos de cáries, perda de dentes e doença gengival avançada atingiu 308,2 milhões de pessoas na região. Os dados fazem parte do Estudo de Carga Global de Doenças (GBD), realizado pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington, com financiamento da Fundação Gates e coordenação do epidemiologista Rafael Lozano, contando com a colaboração de pesquisadores brasileiros.
A análise, publicada na revista *The Lancet Regional Health – Americas*, abrange estimativas de 33 países entre 1990 e 2023. No último ano monitorado, as patologias bucais representaram 53,7% de todas as doenças em curso na região. No ranking de novos casos anuais, as condições odontológicas ocupam a terceira posição, superadas apenas pela Covid-19 e por infecções das vias aéreas superiores. Embora tenha ocorrido uma redução discreta na incidência de novos casos, a prevalência e a incapacidade gerada permaneceram estáveis desde 1990, o que indica a eficácia limitada das estratégias preventivas e a baixa prioridade do tema nas políticas públicas regionais.
O estudo demonstra que a natureza da doença evolui conforme a idade. Na infância, o pico de incidência de cáries em dentes de leite ocorre entre os 5 e 9 anos. Na fase adulta, predominam as cáries em dentes permanentes, com maior frequência entre os 40 e 44 anos. Já na velhice, as condições mais graves são a periodontite (doença gengival avançada) e o edentulismo, que é a perda total dos dentes naturais.
O impacto na qualidade de vida é medido pelos anos vividos com incapacidade (AVI). Em 2023, foram registrados 2,41 milhões de AVI na região, dos quais 1,3 milhão foram causados exclusivamente pelo edentulismo.
As disparidades estruturais entre as nações refletem variações significativas nos dados. No grupo de crianças de 1 a 9 anos, Belize e Paraguai apresentaram as maiores taxas de incapacidade por cáries em dentes de leite, enquanto Brasil e Colômbia registraram os menores índices. Entre 1990 e 2023, Chile, Argentina e Uruguai reduziram esses índices em mais de 15%, ao passo que México, Paraguai e nações da América Central não apresentaram avanços relevantes.
Quanto aos dentes permanentes, as taxas mais elevadas foram observadas no Chile, Bolívia e Equador. A periodontite grave foi mais incapacitante em Porto Rico, Bermudas e Uruguai, com a maioria dos países registrando alta de 25% ou mais desde 1990. No caso do edentulismo em adultos com 60 anos ou mais, o Brasil, a Bolívia e o Peru figuram entre os países mais afetados, contrastando com Chile e Colômbia, que tiveram quedas superiores a 15%. Os pesquisadores notaram que países mais desenvolvidos tendem a ter menos perda total de dentes, porém maior incapacidade por periodontite, possivelmente porque a população chega à velhice com os dentes naturais, ficando exposta à doença gengival.
A persistência dessas condições está ligada ao acesso a medidas preventivas. A carga de doenças é menor onde há disponibilidade de exames de rotina e creme dental com flúor. Brasil, Colômbia, México, Chile e Peru já implementaram a fluoretação via água, sal ou creme dental, o que reduziu as cáries infantis, mas não foi suficiente para baixar a carga entre adultos. Isso evidencia a necessidade de enfrentar outros fatores, como o tabagismo e a alimentação, além de ampliar o acesso a tratamentos reabilitadores, especialmente para populações indígenas, rurais e socialmente excluídas.
O Brasil e a Colômbia destacam-se como os únicos países da região a manter um monitoramento sistemático da saúde bucal, enquanto a maioria do continente possui dados fragmentados.
A tendência é de agravamento devido ao envelhecimento populacional. Os anos vividos com incapacidade saltaram de 1,02 milhão em 1990 para 2,41 milhões em 2023, com projeção de chegar a 3,81 milhões em 2050, impulsionados pela periodontite e pelo edentulismo. Para reverter esse cenário, o estudo propõe a integração da saúde bucal à atenção primária e à cobertura universal de saúde, com foco em todas as etapas da vida e no combate a determinantes sociais e comerciais, como a taxação de produtos de tabaco e bebidas açucaradas.
A pesquisa aponta limitações metodológicas, como a ausência de dados primários em 14 países, a maioria no Caribe, e o fato de o edentulismo ter sido contabilizado apenas como perda total, o que pode mascarar o impacto da perda parcial de dentes na nutrição e mastigação de idosos.