Entidades médicas pedem que a Anvisa proíba totalmente o uso de implantes hormonais manipulados
Doze entidades médicas e científicas solicitaram à Anvisa a proibição total de implantes hormonais manipulados. O pedido, formalizado na Carta do Rio de Janeiro, fundamenta-se na ausência de evidências de segurança e eficácia, além de riscos à saúde
Doze entidades médicas e científicas, nacionais e internacionais, solicitaram à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibição total de implantes hormonais manipulados, conhecidos como "chips da beleza". O pedido foi formalizado por meio da Carta do Rio de Janeiro, apresentada nesta quinta-feira (1º), durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa.
O documento é assinado por instituições como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Internacional da Menopausa (IMS). Também integram o grupo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Associação Brasileira de Climatério (Sobrac) e as sociedades brasileiras de Mastologia (SBM), Reprodução Humana (SBRH), Cardiologia (SBC) e Hepatologia (SBH).
Riscos à saúde e falta de evidências
As entidades alertam que esses produtos são frequentemente comercializados para tratar sintomas da menopausa, perda de libido, emagrecimento e ganho de massa muscular, porém carecem de estudos clínicos que comprovem a segurança ou a eficácia de tais promessas. A preocupação central reside na ausência de dados sobre a estabilidade, esterilidade, qualidade farmacêutica e a velocidade com que os hormônios são liberados no organismo.
A administração subcutânea apresenta riscos específicos, pois, ao contrário de géis ou comprimidos, os implantes não permitem o ajuste imediato da dose ou a interrupção rápida do tratamento. Em casos de reações adversas ou concentrações hormonais excessivas, a retirada completa do dispositivo pode ser impossível, mantendo a liberação de substâncias no corpo.
Entre as complicações potenciais, as sociedades médicas destacam:
- Riscos graves: Possibilidade de AVC, trombose, problemas hepáticos e cardiovasculares, além de impactos no endométrio e nas mamas.
- Efeitos da gestrinona: O uso desse esteroide sintético pode causar queda de cabelo, acne, engrossamento da voz, crescimento excessivo de pelos e aumento do clitóris, com alterações que podem se tornar permanentes.
O endocrinologista Clayton Macedo, doutor pela Unifesp, relata a ocorrência de internações de pacientes com complicações graves que, muitas vezes, sequer sabem qual substância foi implantada em seus corpos.
Mercado e fiscalização
A carta denuncia a existência de um modelo comercial baseado em produção em escala, formação de estoques e treinamento de médicos para a prescrição desses produtos, com forte divulgação em redes sociais. Há registros de que implantes adquiridos por aproximadamente R$ 200 são revendidos a pacientes por valores que variam entre R$ 4 mil e R$ 12 mil.
As entidades defendem que a Anvisa proíba a manipulação, distribuição, publicidade e o uso desses implantes, independentemente da finalidade, exigindo fiscalização rigorosa e a responsabilização de todos os envolvidos na cadeia comercial.
Histórico regulatório e terapias seguras
A controvérsia sobre esses produtos persiste desde outubro de 2024, quando a Anvisa suspendeu a manipulação e o uso de todos os implantes hormonais manipulados. Contudo, após recursos de clínicas, farmácias e médicos, a agência flexibilizou a medida no mês seguinte. Atualmente, a proibição foca em implantes à base de hormônios androgênicos ou esteroides anabolizantes para fins estéticos e esportivos, mantendo a permissão para outras finalidades terapêuticas.
As sociedades médicas argumentam que essa brecha permite que produtos anabolizantes continuem sendo oferecidos para tratar endometriose, síndrome dos ovários policísticos e menopausa, sem evidências robustas. Para as entidades, a prescrição individualizada não deve ser utilizada como justificativa para a experimentação sem segurança.
É importante ressaltar que a solicitação não se opõe à terapia hormonal, que é segura e eficaz quando utiliza medicamentos registrados (como adesivos, géis e comprimidos) e com acompanhamento médico. No caso da testosterona, o único uso feminino respaldado internacionalmente é para o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, com doses dentro da faixa fisiológica.
O pedido de proibição também não inclui implantes contraceptivos registrados na Anvisa, como o de etonogestrel. O foco exclusivo são as formulações manipuladas que não passaram pelos rigorosos testes de segurança exigidos para medicamentos registrados.