Escassez de testes para variante do Ebola dificulta resposta a surto no Congo e Uganda
A escassez de testes para a variante Bundibugyo do Ebola no leste da República Democrática do Congo e em Uganda resultou em mais de 500 casos suspeitos e 130 mortes. A OMS coordena reuniões técnicas em Genebra para ampliar diagnósticos e discutir o uso emergencial da vacina Ervebo. Foram enviadas 18 toneladas de insumos ao Congo para apoiar a resposta sanitária
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A escassez de testes diagnósticos para a variante Bundibugyo do Ebola compromete a resposta ao surto que se expande no leste da República Democrática do Congo e já atingiu Uganda, com dois casos confirmados. De acordo com Anne Ancia, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) no país, a região consegue processar apenas seis exames por hora para identificar essa cepa específica, o que retardou a detecção da epidemia e gera incertezas sobre a real dimensão do contágio, dada a limitação da vigilância epidemiológica. Até o momento, foram registrados mais de 500 casos suspeitos e ao menos 130 mortes relacionadas ao surto.
A variante Bundibugyo é classificada como rara e não possui vacinas ou tratamentos aprovados. Para enfrentar a crise, a OMS lidera encontros técnicos durante a 79ª Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, entre 18 e 23 de maio. O objetivo é discutir a ampliação da capacidade de diagnóstico, estratégias de rastreamento de contatos, tratamentos experimentais e a viabilidade de estudos clínicos para novos imunizantes. Um dos pontos centrais é a possibilidade de uso emergencial da vacina Ervebo, produzida pela Merck. Embora aprovada para a cepa Zaire, a vacina demonstrou proteção cruzada em testes com animais. A decisão sobre a aplicação emergencial caberá aos governos de Uganda e do Congo, enquanto a aliança Gavi já disponibiliza 2 mil doses no território congolês para eventuais campanhas ou testes.
No campo do diagnóstico, a BioFire Defense, da empresa francesa bioMérieux, informou que está aumentando a produção do BioFire Global Fever Special Pathogens Panel. O teste, aprovado pelo FDA dos Estados Unidos, é capaz de identificar múltiplas espécies do vírus, incluindo a Bundibugyo.
Para apoiar as operações locais, a OMS já enviou 12 toneladas de insumos ao Congo, com a previsão de chegada de outras seis toneladas nesta terça-feira (19). O material compreende itens de rastreamento de contatos, insumos laboratoriais, kits de coleta de amostras e equipamentos de proteção individual.
A resposta sanitária enfrenta, porém, obstáculos financeiros e logísticos. Anne Ancia destacou que a redução de recursos globais para a saúde impactou as operações da OMS no Congo, mencionando os cortes de financiamento do governo de Donald Trump e a saída dos Estados Unidos da organização em janeiro, embora a cooperação técnica entre as partes permaneça ativa. Paralelamente, o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) relatou ter recebido apenas 34% dos R$ 7,9 bilhões solicitados para ações humanitárias no país este ano, sendo que mais da metade desse montante veio de Washington.
A contenção da doença é ainda dificultada por conflitos armados e problemas logísticos no leste do Congo, que prejudicam a realização de estudos clínicos. A natureza incomum e imprevisível dos surtos da variante Bundibugyo também torna mais complexo o desenvolvimento de protocolos de resposta rápida e vacinas específicas.