Especialista orienta que familiares de pacientes com depressão estabeleçam limites para evitar a sobrecarga
A depressão impacta a dinâmica familiar e pode causar exaustão e sintomas psicossomáticos nos cuidadores. A terapeuta Birgit Esch orienta o estabelecimento de limites e a busca por suporte terapêutico para preservar a saúde mental dos acompanhantes. O tratamento envolve a adaptação da comunicação e a valorização de pequenas conquistas do paciente
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O impacto da depressão extrapola o paciente e altera profundamente a dinâmica dos relacionamentos familiares, exigindo que os acompanhantes desenvolvam estratégias de autocuidado para evitar o colapso emocional e físico. A experiência de Stefan, desenvolvedor de software de 44 anos, ilustra esse processo: após a esposa, Jessica, desenvolver a doença durante a pandemia de covid-19, a convivência do casal perdeu a leveza, e ele passou a assumir a maioria das responsabilidades domésticas e burocráticas.
O quadro de Jessica evoluiu para fobia social, dificultando tarefas simples como fazer compras ou realizar ligações telefônicas. Esse cenário gerou um ciclo prejudicial: quanto mais Stefan assumia as funções da esposa para auxiliá-la, mais ela se sentia um peso, intensificando sentimentos de culpa e vergonha. A sobrecarga do cuidador manifestou-se em Stefan por meio de sintomas psicossomáticos, como tiques nervosos e insônia causada por coceiras, surgidos no quarto ano da doença.
A terapeuta familiar sistêmica Birgit Esch, que atua em uma clínica em Bonn, na Alemanha, ressalta que a melhora do paciente está condicionada ao envolvimento dos familiares no tratamento. Esch observa que parentes frequentemente enfrentam um período de extrema exaustão e ansiedade nas quatro semanas que antecedem a internação do paciente, pois tentam resolver a situação sozinhos sem suporte adequado.
A abordagem terapêutica orienta que os familiares aprendam a estabelecer limites claros, separando a identidade da pessoa da patologia. Segundo a especialista, a imposição de limites não representa a rejeição do ente querido, mas sim a limitação do espaço ocupado pela depressão. Uma diretriz fundamental é a de que a ajuda deve ocorrer mediante solicitação, preservando a autonomia do paciente e evitando a sobrecarga do acompanhante.
No caso de Stefan e Jessica, a comunicação foi adaptada para reduzir conflitos. Para tratar de temas sensíveis ou críticas, o casal optou pelo uso de mensagens de texto, permitindo que ele se expresse e que ela responda no próprio ritmo, diminuindo o desgaste emocional.
Após três anos de afastamento do trabalho, Jessica retomou a atividade profissional com uma jornada reduzida de quatro horas diárias, quatro vezes por semana. A recuperação é marcada pela valorização de pequenas conquistas, como a capacidade de ir ao supermercado ou realizar cuidados pessoais.
Para recuperar sua própria saúde mental, Stefan buscou apoio terapêutico e participou de grupos de conversa e cursos ministrados por Esch. Ao compreender a necessidade de cuidar de si mesmo e manter atividades independentes, como a prática de esportes e a interação com novas pessoas, ele conseguiu eliminar os sintomas psicossomáticos.
Embora muitos casais encontrem formas de convivência, a terapeuta alerta que a separação pode ser a alternativa necessária quando a depressão é utilizada como justificativa para comportamentos abusivos ou falta de gentileza, o que inviabiliza a manutenção de uma relação saudável.