Saúde

Estados Unidos registram o pior surto de sarampo desde que o país era livre do vírus

01 de Outubro de 2026 às 09:01 4 min de leitura

Os Estados Unidos registraram a quinta morte por sarampo este ano, com mais de 3,6 mil casos contabilizados. Todas as vítimas fatais não estavam imunizadas, e a Pensilvânia concentra o maior volume de óbitos e registros da doença no país

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Os Estados Unidos registram a quinta morte por sarampo este ano, consolidando o pior surto da doença desde que o país foi declarado livre do vírus, em 2000. Apenas no corrente ano, já foram contabilizados mais de 3,6 mil casos, um aumento de 59% em comparação ao total do ano anterior, que também havia sido o mais crítico em décadas.

Todas as vítimas fatais eram pessoas não imunizadas. Entre os óbitos confirmados, estão dois bebês e dois adultos, enquanto os dados da quinta vítima não foram detalhados.

Queda na cobertura vacinal e riscos epidemiológicos

A crise sanitária é reflexo de uma redução progressiva nas taxas de imunização que persiste há seis anos. Para conter a propagação do sarampo — um dos vírus mais contagiosos conhecidos —, a ciência estabelece que a cobertura vacinal deve ser superior a 95%. Esse índice é fundamental para garantir a imunidade de rebanho, impedindo que o vírus encontre hospedeiros suscetíveis para se espalhar, mesmo em casos de importação da doença.

Dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) indicam que, nos últimos sete anos, cerca de 1,7 milhão de crianças não receberam a vacina. No entanto, esse número pode ser maior devido ao sistema de saúde norte-americano, que é privado e descentralizado, o que favorece a subnotificação.

A análise da cobertura vacinal por estado revela um declínio acentuado:

  • 2011: 21 de 44 estados mantinham a vacinação acima de 95%.
  • 2020-2021: O número de estados com proteção ideal caiu para 16, coincidindo com o período da pandemia de Covid-19.
  • Atualmente: Apenas 10 dos 49 estados avaliados preservam a meta de 95%.

O estado de Idaho apresenta a situação mais grave, com uma queda de 15 pontos percentuais em dez anos, situando-se quase 20 pontos abaixo do patamar de segurança.

Barreiras ao acesso e a influência de movimentos antivacina

A baixa adesão aos imunizantes é impulsionada por movimentos antivacinação e discursos políticos. O presidente Donald Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., associaram publicamente a vacina tríplice viral ao autismo, tese baseada em um estudo de 1998 que foi comprovadamente fraudulento e resultou na perda da licença médica de seu autor, Andrew Wakefield. Estudos globais com milhões de crianças já refutaram qualquer relação causal entre vacinas e autismo.

Além da desinformação, barreiras financeiras dificultam o controle do surto. A vacina MMR (tríplice viral) não é gratuita nos Estados Unidos, sendo acessível apenas para quem possui seguro saúde ou cobertura pelo Medicaid. Cortes neste programa ampliaram a dificuldade de acesso para crianças e adultos.

Recentemente, um decreto assinado por Donald Trump reformulou o calendário nacional de vacinação, reduzindo de 17 para 11 o número de doses obrigatórias. A medida alterou a recomendação da MMR, priorizando doses separadas para sarampo, caxumba e rubéola em vez da dose combinada, sob a alegação, sem evidências científicas, de que a vacina combinada poderia causar mortes.

Bolsões de vulnerabilidade e a situação na Pensilvânia

Especialistas alertam que a análise de dados por estado pode mascarar a realidade. Recortes por condados, como os realizados pela Universidade Johns Hopkins, revelam "bolsões" de baixa vacinação mesmo em estados com médias altas, como Califórnia e Novo México.

Esse fenômeno explica a situação da Pensilvânia: apesar de ter uma taxa de imunização de 92,7%, o estado concentra o maior volume de casos e mortes do país, com mais de 700 registros e 5 óbitos, incluindo dois bebês.

Para ilustrar o risco, a cobertura média de 92,5% entre 3,7 milhões de crianças que ingressaram na pré-escola este ano significa que aproximadamente 284 mil crianças iniciaram os estudos sem as duas doses da tríplice viral.

Comparativo com o cenário brasileiro

No Brasil, a cobertura vacinal contra o sarampo está abaixo de 80%, índice consideravelmente inferior aos 95% recomendados. Apesar disso, o país registrou apenas 42 casos este ano, concentrados majoritariamente em São Paulo (36 casos), com ocorrências na capital, Guarulhos, Santo André e São Bernardo do Campo.

A diferença na propagação da doença, segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), reside na resposta governamental. O Brasil possui um sistema de vigilância constante e oferece vacinação gratuita. O país chegou a perder o certificado de eliminação do sarampo em 2019, mas recuperou o status em 2024 após intensas ações de contenção epidemiológica.

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