Estudo da Unicamp indica que a dor na inserção do DIU é mais comum que o previsto
Pesquisa da Unicamp com 7.259 inserções de DIU em Campinas (SP) indicou que 81% das mulheres sentiram dor moderada ou intensa. O índice supera a estimativa de menos de 5% do manual técnico do Ministério da Saúde. O estudo apontou que apenas 6,1% dos procedimentos utilizaram medicações prévias
Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que a dor durante a inserção do dispositivo intrauterino (DIU) é significativamente mais comum do que preveem as normas oficiais do Brasil. A pesquisa, publicada na revista *International Journal of Gynecology & Obstetrics*, indicou que 81% das mulheres relataram dor moderada ou intensa durante o procedimento, número que supera em mais de 16 vezes a estimativa do manual técnico do Ministério da Saúde, que aponta a ocorrência desse nível de desconforto em menos de 5% dos casos.
A análise acompanhou 7.259 inserções realizadas entre 2022 e 2024 em um serviço público de referência em Campinas (SP). Os dados detalham que 54% das participantes sentiram dor severa e 27% relataram dor moderada. O estudo identificou que a intensidade do desconforto é maior em mulheres mais jovens, naquelas que nunca deram à luz e em pacientes que passaram por cesariana agendada, possivelmente devido a cicatrizes que podem causar a estenose do canal vaginal.
Apesar da alta frequência de dor, o uso de medicações prévias foi reduzido. Apenas 6,1% dos procedimentos analisados — totalizando 429 casos — utilizaram fármacos como analgésicos, anti-inflamatórios não esteroides ou antiespasmódicos. O uso de opioides foi quase inexistente, e a pesquisa constatou a ausência de um protocolo padronizado para o controle da dor no serviço avaliado.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza apenas o DIU de cobre, cuja inserção nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) geralmente não inclui o uso de anestésicos locais. Além disso, apenas 20% dessas unidades realizam a colocação do dispositivo, muitas vezes exigindo agendamentos que levam meses. O DIU hormonal, que apresenta eficácia ligeiramente superior ao de cobre, não é oferecido na rede pública.
Enquanto centros de referência como a Unicamp utilizam anestésicos locais e anti-inflamatórios, e a rede particular adota essas práticas com mais frequência, a sedação completa exige internação em centro cirúrgico. Essa última opção é considerada inviável para larga escala devido aos custos, sendo reservada para casos raros, como mulheres com o colo do útero muito fechado.
O cenário brasileiro contrasta com recomendações internacionais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere o uso de anestesia local e outras medidas para mitigar a dor, e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) orientou, em 2025, que médicos adotem estratégias para minimizar o desconforto em consultório. No Reino Unido, por exemplo, são utilizados cremes, sprays ou injetáveis de lidocaína.
A baixa adesão ao DIU no Brasil — utilizada por apenas 4% a 5% das mulheres, contra 40% que usam pílulas e 25% que optam pela laqueadura — é atribuída a múltiplos fatores. Além do medo da dor, pesam a carência de profissionais treinados, a dificuldade de acesso, o custo no setor privado, a ausência da versão hormonal no SUS e a desinformação.
Apesar dos desafios na inserção, o DIU é um dos métodos contraceptivos mais eficazes, com taxa de sucesso superior a 99%. O modelo de cobre dura 12 anos, enquanto as versões hormonais (Mirena e Kyleena) duram 8 e 5 anos, respectivamente. O método é reversível, não interfere na fertilidade futura e pode ser utilizado como contracepção de emergência até cinco dias após a relação sexual desprotegida.
O Ministério da Saúde afirmou que orienta a adoção de cuidados centrados na paciente, incluindo o uso de analgésicos e anti-inflamatórios quando indicado. A pasta informou ainda que acompanha pesquisas para atualizar as políticas públicas e que expandiu a oferta de métodos, como o implante subdérmico.
Sobre as contraindicações, o Ministério lista gestação, câncer de colo do útero ou endométrio, imunodepressão grave por HIV, distúrbios severos de coagulação, alergia ao cobre e certas malformações uterinas. No pós-parto ou aborto imediato, a inserção é contraindicada em casos de febre, retenção placentária ou abortamento infectado.
Quanto aos efeitos adversos, o DIU de cobre pode causar aumento do fluxo menstrual e de cólicas, especialmente nos primeiros meses. Já as versões hormonais podem provocar sangramentos irregulares e efeitos como acne, sensibilidade mamária e alterações de humor. Ambos apresentam riscos raros de perfuração uterina ou expulsão do dispositivo.