Estudo indica que condições estruturais dificultam a manutenção de dietas saudáveis para crianças no Brasil
Estudo do Instituto Pensi com 142 pessoas de cinco capitais aponta que fatores estruturais, como preço e jornada de trabalho, dificultam a alimentação infantil saudável no Brasil. Dados do ENANI-2019 e UNICEF indicam alta prevalência de ultraprocessados entre crianças, enquanto o FNDE prevê elevar para 85% a oferta de alimentos in natura nas escolas a partir de 2026
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A alimentação infantil no Brasil é moldada por um conjunto de fatores sociais, econômicos e culturais que vão além das escolhas individuais das famílias. Um estudo recente do Instituto Pensi, intitulado "Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável", indica que a dificuldade em manter dietas saudáveis para crianças não decorre da falta de informação, mas de condições estruturais que limitam as opções dos responsáveis.
A pesquisa foi realizada entre setembro e outubro de 2025, por meio de grupos focais on-line com 142 pessoas de cinco capitais: São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia. O público abrangeu famílias das classes AB, C e DE, sendo que 57% dos domicílios tinham uma ou duas crianças e 4% possuíam três ou mais. O projeto contou com a idealização do Pacto Contra a Fome, apoio da Food and Land Use Coalition (FOLU) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS).
Embora os participantes associem a alimentação saudável a itens caseiros e frescos, como arroz, feijão, frutas e legumes, a prática diária é dificultada pelo preço dos alimentos, pela jornada de trabalho, pelo cansaço e pela pressão da publicidade. Produtos ultraprocessados, como biscoitos, refrigerantes e fast food, acabam funcionando como atalhos na rotina devido à praticidade, ao baixo custo e à maior durabilidade.
A influência do marketing é um fator determinante. Uma meta-análise de 96 estudos publicada no JAMA Pediatrics confirmou que a publicidade de alimentos eleva a ingestão e a preferência de crianças e adolescentes por esses produtos. Diante disso, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde defendem a proteção do público infantil contra a propaganda de ultraprocessados para prevenir a obesidade e doenças crônicas.
Dados estatísticos reforçam a onipresença desses produtos. O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) revelou que 80,5% das crianças de seis a 23 meses e 93% daquelas entre 24 e 59 meses consomem ultraprocessados. O consumo de bebidas adoçadas foi de 24,5% e 50,3% nessas mesmas faixas etárias. Complementarmente, um estudo do UNICEF de 2026 apontou que metade das crianças pesquisadas consumiu ultraprocessados no lanche do dia anterior.
O ambiente escolar também desempenha papel central. Em escolas públicas, a merenda é vista como referência de refeição equilibrada e segurança alimentar. Já em famílias de maior renda, a preocupação recai sobre a qualidade nutricional das cantinas e lancheiras. Para enfrentar o problema, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou que, a partir de 2026, a proporção de alimentos in natura ou minimamente processados nas escolas subirá para 85%, limitando os processados e ultraprocessados a 10%.
As desigualdades socioeconômicas aprofundam o cenário. Enquanto famílias de alta renda utilizam delivery e fast food como lazer, as classes C e DE priorizam alimentos que "sustentem" e não estraguem, condicionando a compra de frutas e peixes ao preço. Essa vulnerabilidade é corroborada por dados do IBGE de 2024, que registraram insegurança alimentar grave em 3,2% dos domicílios brasileiros, com índices maiores no Norte (6,3%) e Nordeste (4,8%).
O estudo conclui que a responsabilidade pela dieta infantil não deve recair exclusivamente sobre as famílias, especialmente sobre as mães, que concentram a maior carga de trabalho doméstico e de cuidado. A análise sugere que a melhoria da alimentação infantil exige a regulamentação de cantinas e publicidades, a criação de condições para tornar alimentos saudáveis mais acessíveis e o apoio estrutural a quem cuida da alimentação no ambiente doméstico.