Estudo propõe ampliar para 36 meses o prazo de identificação de alto risco no mieloma múltiplo
Estudo publicado na revista Cancer propõe ampliar para 36 meses o período de identificação de pacientes com mieloma múltiplo funcional de alto risco. A pesquisa com 310 pacientes indica que o limite de três anos é mais preciso para detectar sobrevida inferior a dois anos após a progressão da doença
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A evolução nas terapias para o mieloma múltiplo, câncer que atinge os plasmócitos da medula óssea, está impulsionando a revisão dos critérios utilizados para definir o prognóstico da doença. Um estudo publicado na revista Cancer, da Sociedade Americana do Câncer, propõe que o período para identificar pacientes com mieloma múltiplo funcional de alto risco seja ampliado de 18 para 36 meses.
A mudança justifica-se pelo fato de que os esquemas terapêuticos contemporâneos conseguem controlar a patologia por períodos mais longos. Atualmente, é comum a utilização de uma combinação de quatro medicamentos — composta por imunomoduladores, inibidores de proteassoma, corticoides e anticorpos monoclonais —, frequentemente seguida por um transplante autólogo de células-tronco. Esse cenário faz com que pacientes anteriormente classificados como de risco intermediário possam apresentar, na realidade, uma evolução clínica desfavorável.
Novos critérios de risco e sobrevida
O grupo de alto risco funcional engloba pacientes cuja doença progride ou retorna rapidamente após a terapia inicial, fator associado a uma menor sobrevida. O parâmetro anterior, que considerava recaídas em até 18 meses, foi estabelecido antes da implementação das terapias modernas.
Para fundamentar a nova proposta, pesquisadores monitoraram 310 pacientes recém-diagnosticados, submetidos à terapia quádrupla e ao transplante de células-tronco, durante aproximadamente três anos e meio. Dos analisados, 66 apresentaram progressão da doença. A equipe testou intervalos de 12, 18, 24 e 36 meses e determinou que o limite de três anos é o mais preciso para identificar pacientes com expectativa de sobrevida inferior a dois anos após a progressão.
Na amostra estudada, 16,4% dos pacientes tiveram a progressão da doença nos primeiros 36 meses. O dado revela que, embora a eficácia dos tratamentos atuais retarde o retorno do câncer, isso não garante necessariamente um prognóstico melhor no momento da recaída.
Limitações dos sistemas de classificação
A pesquisa evidenciou que os modelos tradicionais de classificação de risco não detectam todos os casos de evolução agressiva. Entre os pacientes que se enquadraram no novo critério de alto risco funcional:
- Mais de um terço era classificado como de baixo estágio por um dos principais sistemas vigentes;
- Pouco mais da metade era considerada de risco padrão por outro modelo clínico amplamente utilizado.
Esses resultados indicam que a evolução clínica oferece dados fundamentais que podem não estar visíveis nos exames realizados no diagnóstico inicial.
Eficácia de terapias inovadoras
O estudo também avaliou as intervenções aplicadas após a progressão da doença. Pacientes submetidos a terapias de redirecionamento de células T, que orientam o sistema imunológico a atacar as células do mieloma, obtiveram resultados superiores:
- Taxa de resposta: 91%, comparado a 47% em outras abordagens;
- Controle da doença: 80% permaneciam sem progressão após um ano, enquanto apenas 23% dos demais pacientes mantiveram esse quadro.
A adoção do critério de 36 meses permitiria que médicos identifiquem com maior precisão os pacientes com pior prognóstico, facilitando o encaminhamento precoce para ensaios clínicos e tratamentos inovadores. Os autores ressaltam que a nova definição deve ser confirmada por estudos independentes antes de ser integrada às diretrizes clínicas oficiais.