Foz do Iguaçu é a principal porta de entrada de canetas emagrecedoras ilegais no Brasil
Foz do Iguaçu é a principal via de entrada de canetas emagrecedoras ilegais no Brasil. A Anvisa autoriza apenas cinco fármacos, mas produtos clandestinos com baixa pureza e substâncias proibidas são contrabandeados do Paraguai. A fabricante Eli Lilly alerta que qualquer tirzepatida vendida fora dos canais oficiais é falsificada
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Foz do Iguaçu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, consolidou-se como a principal porta de entrada de canetas emagrecedoras ilegais no país. A cidade, que possui três pontes de acesso internacional e cerca de 30 quilômetros de linha fronteiriça, oferece a localização estratégica utilizada para impulsionar o contrabando desses medicamentos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringe a importação de emagrecedores e autoriza a comercialização de apenas cinco fármacos no território nacional: Mounjaro, Turzemax, Veltrane, ZPHC e Thera Biolabs. Apesar disso, há um volume significativo de brasileiros que utilizam produtos trazidos do Paraguai por atravessadores, substâncias que operam sem qualquer controle sanitário.
A diferença entre o medicamento regulado e as versões clandestinas é drástica. Enquanto a tirzepatida original exige 99% de pureza, testes independentes em frascos vendidos ilegalmente revelaram índices de pureza entre 7% e 14%. Análises laboratoriais conduzidas por Maria Fernanda Barca, doutora em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP, identificaram a presença de sibutramina — substância proibida para uso injetável —, insumos de origem desconhecida, frascos sem esterilidade mínima e soluções com pureza abaixo do aceitável.
O risco reside na cadeia de produção irregular, onde as canetas são fabricadas em ambientes sem assepsia, com matérias-primas baratas e frascos superconcentrados destinados a múltiplos pacientes, o que amplia as chances de contaminação. Embora a Anvisa permita a manipulação de tirzepatida, a agência impõe critérios rígidos: o insumo deve ter pureza comprovada, rastreabilidade total, manipulação em ambiente estéril com controle microbiológico e produção de frascos individuais sob demanda, sendo proibidos o estoque e a produção seriada.
A ausência desses protocolos resulta em danos graves à saúde. Reações gastrointestinais violentas, como vômitos persistentes, náuseas incapacitantes, diarreia intensa e desidratação, são frequentes devido a impurezas ou degradação térmica da molécula por falta de cadeia fria. A falta de esterilidade pode causar abscessos, febre e infecções sistêmicas. Outros quadros relatados incluem surtos psicóticos, diverticulite, tonturas, palpitações, arritmias e picos de pressão arterial. Em casos extremos, há risco de morte.
A instabilidade química também gera riscos de dosagem. Concentrações excessivas podem provocar hipoglicemia e confusão mental, enquanto doses insuficientes levam o paciente a aumentar a quantidade por conta própria. Além disso, o uso de produtos clandestinos cria uma falsa sensação de tratamento, retardando o controle de doenças como diabetes e obesidade, o que eleva os riscos cardiovasculares e a resistência à insulina.
Casos reais ilustram a periculosidade do mercado paralelo. Paulo Marin, de 50 anos, aplicou tirzepatida em um consultório improvisado, sem acesso a receitas ou lotes, apresentando náuseas, tonturas e hematomas, sem obter perda de peso. Ivete de Freitas, de 69 anos, adquiriu um produto importado da Argentina por um preço inferior ao de farmácia e desenvolveu placas vermelhas pelo corpo após a aplicação.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que não produz, comercializa ou autoriza a fabricação do medicamento em farmácias de manipulação, nem a venda de produtos fracionados ou a granel. A empresa alerta que qualquer solução líquida de tirzepatida vendida fora dos canais oficiais deve ser considerada falsificada. Em análises recentes, a farmacêutica detectou ampolas clandestinas com substâncias desconhecidas, ausência total do princípio ativo ou misturas com estimulantes. A fabricante reforça que o Mounjaro legítimo é distribuído exclusivamente em canetas descartáveis, seladas e rastreáveis, mediante prescrição médica.