Saúde

Governo do Reino Unido lança plano de reforma decenal para enfrentar crise no sistema de saúde

16 de Outubro de 2026 às 12:01 4 min de leitura

O governo britânico lançou em 2025 um plano de reforma decenal para o NHS focado em digitalização, prevenção e descentralização do atendimento. O sistema enfrenta crise por investimentos restringidos, envelhecimento populacional e filas de espera, que somavam 6,2 milhões de pessoas em julho de 2026

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Governo do Reino Unido lança plano de reforma decenal para enfrentar crise no sistema de saúde
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O sistema público de saúde do Reino Unido, o National Health Service (NHS), atravessa uma de suas crises mais profundas, servindo como um alerta para o Brasil, que utilizou o modelo britânico como referência para a criação do SUS. O cenário de saturação no país europeu é impulsionado por mais de uma década de investimentos restringidos, somados ao envelhecimento populacional e ao aumento de doenças crônicas.

Para tentar reverter a situação, o governo britânico lançou, em 2025, um plano de reforma decenal. As diretrizes focam na digitalização, na ampliação da prevenção de doenças e, principalmente, na transferência do eixo de atendimento dos grandes hospitais para as comunidades.

Desafios estruturais e desigualdades regionais

Tanto o SUS quanto o NHS enfrentam dificuldades para garantir a equidade no acesso e na qualidade do atendimento. No Reino Unido, a natureza descentralizada do sistema gera disparidades significativas entre Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Dados exemplificam essa desigualdade: enquanto o País de Gales apresenta gastos por habitante superiores aos da Inglaterra, suas filas de espera são maiores. Já dentro do território inglês, em setembro de 2025, a lista de espera para tratamentos eletivos na Grande Manchester era oito vezes superior à registrada na região da Cornualha e Ilhas Scilly.

No Brasil, a desigualdade é acentuada pela extensão territorial e pela distribuição irregular de profissionais. A pesquisa Demografia Médica no Brasil (2025) revela que o Sudeste possui 3,77 médicos por 1.000 habitantes, enquanto o Norte conta com apenas 1,70.

Modelos de atendimento e a porta de entrada

O NHS baseia-se nos general practitioners (GPs), médicos generalistas que coordenam o cuidado e decidem sobre encaminhamentos. Para evitar a sobrecarga das emergências, foram criadas as Unidades de Avaliação Aguda (AAUs), clínicas hospitalares voltadas para casos urgentes de curta permanência. No Hospital John Radcliffe, em Oxford, essas unidades atendem entre 1.500 e 1.700 pacientes mensalmente.

Embora o Brasil tenha implementado as UPAs em 2007 com objetivo similar, há uma diferença operacional: a UPA é uma unidade de acesso aberto, enquanto a AAU britânica funciona como um departamento interno do hospital para resoluções rápidas.

Multidisciplinaridade e gestão de filas

Uma característica marcante do sistema britânico é a autonomia de profissionais não médicos. Cerca de 98 mil enfermeiros, farmacêuticos e paramédicos possuem licença para prescrever medicamentos. Esse modelo multidisciplinar permite que triagens direcionem o paciente diretamente ao profissional mais adequado — como farmacêuticos para ajustes de medicação ou enfermeiras para pré-natal —, reduzindo a dependência exclusiva de médicos.

A gestão de filas também passa por revisões críticas. O NHS reduziu listas de espera não apenas aumentando a oferta de procedimentos, mas revisando quem realmente ainda necessitava do tratamento. No entanto, a crise persiste: em julho de 2026, mais de 6,2 milhões de pessoas aguardavam cuidados secundários, com tempo médio de espera de 12 semanas, contra 7,3 semanas em 2019.

O impacto do envelhecimento populacional

A transição demográfica é um dos pontos de maior pressão. No Reino Unido, a população com mais de 65 anos cresceu cerca de 69% em 50 anos. No Brasil, esse processo é mais acelerado: entre 1980 e 2022, o grupo de idosos cresceu 173% em relação ao total da população.

Essa realidade gera a chamada "internação social", onde idosos permanecem em hospitais por falta de suporte domiciliar. Para combater isso, o Reino Unido investe em:

  • Equipes comunitárias: Fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais que adaptam a residência do paciente.
  • Packages of care: Pacotes de assistência pública com visitas diárias para higiene, alimentação e medicação.
  • Hospital em casa: Cuidados de baixa complexidade realizados na residência.

Financiamento e execução de políticas

A diferença financeira entre os sistemas é abismal. Segundo a OCDE, em 2024, o Reino Unido gastava US$ 6.747 por pessoa em saúde, enquanto o Brasil investia US$ 1.898 — um valor 3,6 vezes menor.

Além do volume de recursos, a execução das reformas é um gargalo. No NHS, embora haja um discurso de descentralização, a maior parte do orçamento ainda permanece concentrada nos hospitais. A experiência britânica indica que a eficácia de qualquer plano de saúde pública depende da descentralização orçamentária local e de um planejamento de execução que vá além da apresentação de metas governamentais.

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