Historiador defende que o esgotamento mental possui raízes profundas que remontam à Idade Média
O historiador Peter Jones e a historiadora Anna Katharina Schaffner relacionam o burnout atual à acídia medieval, descrita como vazio emocional e espiritual. Registros desde o século 5 d.C. indicam que sintomas de exaustão mental eram tratados por padres por meio de confissões e práticas de aceitação e propósito
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O esgotamento mental e o estresse, frequentemente associados às pressões do século 21, possuem raízes profundas que remontam à Idade Média. A tese é defendida pelo historiador Peter Jones em sua obra Self-Help from the Middle Ages: A Journey into the Medieval Mind, onde ele analisa como a angústia espiritual e a exaustão eram compreendidas e tratadas por "padres-terapeutas" em séculos passados.
A pesquisa demonstra que sintomas como cansaço, desesperança, névoa mental e a sensação de inutilidade — que levam o indivíduo a buscar refúgio no sono — já eram descritos no século 5 d.C. por João Cassiano. Naquela época, esses sentimentos não afligiam executivos, mas cristãos exaustos pelas rigorosas exigências da vida espiritual.
A relação entre a acídia e o burnout
Um dos pontos centrais da análise de Jones é a acídia. Enquanto hoje a preguiça é vista como indolência, os autores medievais a definiam como um vazio emocional e espiritual, caracterizado por uma paralisia do cuidado e indiferença diante do que antes trazia alegria.
Essa condição guarda paralelos diretos com o burnout, fenômeno ocupacional reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A historiadora cultural Anna Katharina Schaffner, no livro Exhausted, correlaciona a acídia ao esgotamento atual, observando que ambos levam a um ciclo vicioso: a pessoa recorre a distrações sem propósito ou ao conforto da comida para recuperar energias, o que acaba agravando a incapacidade de reflexão e aprofundando o problema.
Outros relatos históricos reforçam essa conexão. No século 12, o autor anônimo conhecido como Archpoet descrevia a frustração com o trabalho burocrático e mesquinho, relatando o esgotamento completo de quem se entrega a tarefas sem sentido.
Métodos de superação e a sabedoria medieval
Para organizar e interpretar esses conflitos mentais, pensadores cristãos como João Cassiano e o papa São Gregório Magno utilizaram a sistematização dos sete pecados capitais: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. No século 13, manuais orientavam padres a conduzirem confissões que funcionavam como terapias, priorizando conversas profundas para alcançar a raiz do sofrimento, em vez de meras repreensões.
As soluções propostas nos manuscritos medievais sugerem abordagens que ecoam a psicologia moderna:
- Aceitação: O manuscrito MS 306 utiliza a metáfora dos jebuseus para aconselhar a convivência com sentimentos negativos, em vez de lutar constantemente contra eles.
- Propósito: No Treatise on the Virtues and Vices, Guilherme Peraldus sugere a busca por uma "montanha imponente" — um propósito maior ou o apoio de alguém amado — para sustentar o indivíduo nos momentos de crise.
- Autoperdão: Tema recorrente também nos escritos de Bernard of Clairvaux, no século 12, e fundamental na psicoterapia contemporânea.
Essa perspectiva de aceitar as emoções sem tentar mudá-las e agir conforme valores pessoais é a base da Terapia de Aceitação e Compromisso, evidenciando que a receita para lidar com o esgotamento mental proposta há 800 anos permanece relevante.