Homens adotam protocolos sem base científica para tentar aumentar a fertilidade masculina via redes sociais
Homens buscam monitorar a fertilidade masculina por meio de protocolos de influenciadores digitais, incluindo o uso de gelo e medicamentos como HCG e HMG. Endocrinologistas alertam que o uso de fármacos sem orientação médica pode causar efeitos graves, como coágulos sanguíneos. Especialistas recomendam a interrupção do tabagismo, redução de peso e atividade física para a saúde reprodutiva
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A crescente preocupação com a fertilidade masculina tem impulsionado um movimento global de homens que buscam monitorar a qualidade do sêmen e a contagem de espermatozoides. Esse cenário é alimentado por discussões em redes sociais como TikTok e Instagram, onde hashtags dedicadas ao tema acumulam centenas de milhões de visualizações, criando comunidades focadas na otimização da saúde reprodutiva.
A influência de protocolos sem base científica
A disseminação de informações por influenciadores digitais tem levado muitos homens a adotarem rotinas rigorosas, embora sem comprovação médica. Um exemplo é o caso de Simon, um jovem de 28 anos de Miami, que segue protocolos promovidos por Bryan Johnson, ex-bilionário do Vale do Silício. A rotina inclui o uso de sauna combinado com bolsas de gelo nos testículos, sob a alegação de que isso preservaria a contagem de espermatozoides e elevaria a testosterona.
Outras práticas propagadas por influenciadores, como o naturopata Lucas, incluem a aplicação de gelo na região genital várias vezes ao dia, terapia com luz vermelha e a doação de sangue com o intuito de filtrar microplásticos do corpo. Embora alguns desses profissionais também recomendem hábitos saudáveis, como sono adequado e alimentação equilibrada, eles frequentemente promovem a venda de suplementos e consultorias baseadas em premissas não verificadas.
Riscos do uso de medicamentos sem orientação
Um dos pontos mais críticos desse movimento é a promoção de "stacks" — combinações de medicamentos como HCG e HMG. Essas substâncias, embora utilizadas em contextos médicos específicos, são vendidas em sites de influenciadores para homens que tentam recuperar a fertilidade após o uso de esteroides anabolizantes ou terapia de reposição de testosterona (TRT).
O uso desses fármacos sem acompanhamento profissional é considerado extremamente perigoso por endocrinologistas. O professor Channa Jayasena, do Imperial College London, alerta que tais práticas podem causar efeitos colaterais graves, como o surgimento de coágulos sanguíneos e o crescimento de mamas, condição que pode deixar sequelas permanentes.
O debate sobre a queda da fertilidade global
O interesse pelo tema coincide com dados sobre a redução das taxas de natalidade. Segundo a ONU, no relatório World Population Prospects 2025, a fecundidade global caiu de 4,9 filhos por mulher em 1950 para 2,2 em 2025, com 106 países abaixo da taxa de reposição populacional (2,1 filhos).
Embora existam evidências de que a qualidade e a quantidade de espermatozoides tenham declinado desde a década de 1970, a ciência ainda não chegou a um consenso definitivo. Enquanto algumas metarrevisões de 2023 apontam a necessidade de mais estudos para entender as causas, pesquisas de 2024 e 2025 realizadas nos Estados Unidos e na Dinamarca não encontraram evidências que confirmem essa queda generalizada.
Além dos fatores biológicos, a ONU destaca que razões financeiras (citadas por 39% das pessoas) e a instabilidade política e ambiental são determinantes significativos para a baixa natalidade.
Recomendações médicas e fatos biológicos
Especialistas reforçam que, embora poluentes ambientais e o aquecimento dos testículos possam impactar a qualidade do esperma, a maioria dos protocolos de influenciadores não gera diferença significativa na fertilidade. O sistema público de saúde do Reino Unido (NHS) confirma que roupas íntimas excessivamente apertadas podem elevar a temperatura local e prejudicar os espermatozoides, mas não valida o uso de bolsas de gelo como tratamento.
Sobre a saúde geral, é importante esclarecer que uma baixa contagem de espermatozoides não compromete o sistema endócrino (rede de glândulas e órgãos que liberam hormônios), embora ambas as condições possam coexistir em alguns indivíduos.
Para quem deseja melhorar a saúde reprodutiva, as orientações médicas concretas focam em mudanças reversíveis no estilo de vida:
- Interrupção do tabagismo;
- Redução de peso;
- Aumento da atividade física.