Idosos têm menor acesso à psicoterapia apesar de a eficácia do tratamento persistir na velhice
Apenas 4% dos adultos com 65 anos ou mais nos Estados Unidos acessam a psicoterapia, apesar de 14% das pessoas acima de 70 anos possuírem transtornos mentais. Estudos indicam que a eficácia do tratamento se mantém em qualquer idade, embora barreiras financeiras e o etarismo dificultem o acesso. Idosos apresentam maior taxa de conclusão da terapia, que chega a 54%
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Apesar de a psicoterapia ser amplamente reconhecida por promover o bem-estar e tratar transtornos mentais, o acesso a esse serviço ainda é reduzido entre a população idosa. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 14% das pessoas com mais de 70 anos convivem com algum transtorno de saúde mental, com predominância de quadros de depressão e ansiedade. Além disso, essa faixa etária concentra 17% de todos os casos de suicídio.
A disparidade no acesso ao tratamento é evidenciada por um estudo de 2024, que revelou que apenas 4% dos adultos com 65 anos ou mais nos Estados Unidos receberam atendimento psicoterapêutico. O índice é significativamente menor do que o registrado entre jovens de 18 a 24 anos (12%) e adultos de 35 a 64 anos (8%).
Contudo, a eficácia da terapia não diminui com a idade. Pim Cuijpers, professor de psicologia clínica da Universidade Vrije Amsterdam, na Holanda, afirma que as intervenções funcionam durante toda a vida adulta. Em uma revisão recente sobre depressão, Cuijpers observou que pesquisas com pessoas acima de 75 anos não indicaram qualquer diferença na eficácia da psicoterapia em comparação a grupos mais jovens.
Para o público idoso, o tratamento auxilia no enfrentamento de questões específicas do envelhecimento, como doenças crônicas e isolamento social, resultando em maior motivação, melhora no bem-estar e ampliação da vida social. Uma revisão publicada em 2025 destaca que as intervenções em grupo apresentam resultados expressivos por oferecerem convivência e troca estruturada entre os participantes.
Outro ponto relevante é a adesão ao tratamento. Embora procurem menos a terapia, os idosos tendem a persistir mais no processo, com taxas de conclusão que chegam a 54%, superando frequentemente os adultos mais jovens. Cuijpers sugere que isso ocorra devido a uma maior motivação em engajar-se no processo terapêutico ao decidirem buscar ajuda.
As barreiras para o acesso são diversas. Fatores financeiros, como a falta de cobertura de planos de saúde e a incapacidade de arcar com os custos, dificultam a chegada ao profissional. Há também entraves no sistema de saúde: médicos da atenção primária tendem a encaminhar idosos para a psicologia com menos frequência, muitas vezes interpretando sintomas de depressão e ansiedade como consequências naturais do envelhecimento ou do declínio da saúde física.
Rossana De Beni, pesquisadora de psicologia experimental da Universidade de Pádua, na Itália, aponta que esse preconceito tem raízes históricas, citando a visão de Sigmund Freud, que em 1905 sugeriu que a terapia perderia a eficácia após os 40 ou 50 anos devido à perda de "elasticidade dos processos mentais". De Beni classifica essa premissa como falsa e ressalta que o etarismo, muitas vezes internalizado pelos próprios pacientes, impede a busca por tratamento e pode, inclusive, aumentar a predisposição a transtornos mentais.
A prática clínica demonstra que a transformação é possível em qualquer etapa. Casos reais ilustram esses benefícios: Maurizio, de 70 anos, utilizou a terapia para lidar com a separação matrimonial, conflitos com os filhos e a transição para a aposentadoria, além de buscar a origem de enxaquecas crônicas. Já Antonio, de 73 anos, e Gigliola, de 68, utilizaram o suporte terapêutico para resolver tensões não verbalizadas e salvar o relacionamento.
Existem diferentes abordagens que podem ser adaptadas às necessidades do idoso. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) foca na modificação de padrões de pensamento disfuncionais, enquanto a terapia psicodinâmica, como a psicanálise, analisa a influência de experiências passadas no presente. A terapia familiar é indicada para dinâmicas relacionais, e a terapia em grupo promove a troca de experiências semelhantes.
No Brasil, o suporte em saúde mental pode ser buscado na rede pública por meio de Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além de ferramentas como o Mapa da Saúde Mental para localização de atendimentos gratuitos.