IMC elevado torna-se o principal fator de risco para a saúde dos brasileiros em 2023
O índice de massa corporal (IMC) elevado tornou-se o principal fator de risco à saúde dos brasileiros em 2023, superando a hipertensão. Os dados do Estudo Global de Carga de Doenças, publicados na revista The Lancet Regional Health – Americas, indicam que o controle de peso e glicose foi o item com menor evolução nas últimas três décadas
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O índice de massa corporal (IMC) elevado consolidou-se como o principal fator de risco para a saúde da população brasileira em 2023, superando a hipertensão. O dado integra o Estudo Global de Carga de Doenças (GBD), realizado pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington, com a colaboração de aproximadamente 200 pesquisadores no Brasil e publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas.
A ascensão do IMC no ranking de riscos é expressiva: em 1990, o indicador ocupava a sétima posição. Enquanto o país registrou avanços na redução de óbitos por acidente vascular cerebral (AVC) e infarto — fatores que elevaram a expectativa de vida nacional —, o controle do peso e dos níveis de glicose foi o que menos evoluiu nas últimas três décadas.
Avanços e retrocessos na saúde cardiovascular
A queda na mortalidade por eventos cardiovasculares é atribuída à redução do tabagismo e ao melhor controle da pressão alta. A proporção de fumantes no Brasil recuou de um terço para pouco mais de um décimo da população, impulsionada por tributação mais alta, restrições publicitárias e normas mais rígidas. Paralelamente, a hipertensão tornou-se mais manejável graças ao diagnóstico na atenção primária e à oferta de medicamentos gratuitos via Farmácia Popular.
Contudo, esse cenário é ameaçado pelo aumento da obesidade e da glicemia. Atualmente, as doenças cardíacas já ultrapassaram o AVC como a maior causa de morte no país. Existe ainda uma correlação direta entre os riscos, visto que entre 70% e 75% das pessoas com obesidade também são hipertensas.
O perigo da isquemia silenciosa
A obesidade pode mascarar sintomas graves. É comum que pacientes atribuam o cansaço e a falta de ar apenas ao excesso de peso, retardando a busca por auxílio médico. Em casos de diabetes ou resistência à insulina, a sensibilidade à dor é reduzida, podendo ocorrer a isquemia silenciosa, em que as artérias se obstruem sem que o paciente sinta dores no peito.
Para a prevenção, são indicados exames periódicos de:
- Glicemia;
- Colesterol;
- Hemoglobina glicada;
- Tomografia de escore de cálcio (para grupos de maior risco, visando identificar placas nas coronárias).
Impacto da gordura visceral e a cronicidade da doença
A gordura acumulada no abdômen é a mais prejudicial, pois produz substâncias que aceleram a formação de placas arteriais. Por isso, a circunferência da cintura é um indicador de risco mais preciso que o IMC. O alerta de obesidade visceral acende quando a medida ultrapassa 102 centímetros em homens e 88 centímetros em mulheres.
O excesso de gordura mantém o corpo em estado de inflamação crônica, o que danifica as paredes dos vasos, eleva a pressão arterial e aumenta o esforço do músculo cardíaco. Além disso, a oscilação de peso — o ciclo de emagrecer e engordar — é, por si só, um fator de risco cardiovascular.
Barreiras socioeconômicas e tratamento
A dificuldade em manter a perda de peso é biológica, pois o organismo reage aumentando a fome e reduzindo a saciedade para economizar energia. No entanto, fatores sociais agravam o problema: alimentos ultraprocessados são mais baratos e acessíveis do que frutas e verduras, dificultando a adesão a dietas saudáveis para a população de baixa renda.
No campo das políticas públicas, o estudo aponta que o programa Farmácia Popular sofreu cortes de recursos entre 2018 e 2022, sendo retomado apenas em 2023. Os pesquisadores defendem que a prevenção da obesidade seja prioridade no plano nacional contra doenças crônicas, exigindo acompanhamento médico contínuo por anos, e não apenas intervenções pontuais.