Itália aprova lei que classifica a obesidade como doença crônica em crianças e adolescentes
Crianças e adolescentes da Itália, especialmente na região da Campânia, apresentam altos índices de excesso de peso, segundo a OMS. Para enfrentar a situação, o país aprovou em 2025 uma lei que classifica a obesidade como doença crônica. A região da Campânia realiza oficinas de nutrição e testa a "dieta que imita o jejum" com adolescentes
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A Itália, historicamente reconhecida como o berço da dieta mediterrânea, enfrenta agora um cenário oposto, com crianças e adolescentes figurando entre as populações com maior índice de excesso de peso na Europa, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O problema é crítico no sul do país, especialmente na região da Campânia, onde a cidade de Ponticelli, nos arredores de Nápoles, tornou-se um dos centros mundiais de obesidade infantil. Em certas áreas dessa região, mais de 40% das crianças entre oito e nove anos estão acima do peso.
Impactos na saúde e diagnóstico tardio
A gravidade da situação reflete-se no perfil dos pacientes em unidades de saúde. No Hospital Betania, em Ponticelli, a médica Sonja Chiappetta observa que a obesidade grave, antes concentrada em adultos na faixa dos 50 anos, agora atinge adolescentes de apenas 16 anos.
Um exemplo crítico é o de Salvatore, de 17 anos e 170 kg. O jovem enfrenta limitações severas de mobilidade e não consegue realizar tarefas simples, como amarrar os cadarços. Devido ao peso elevado, a cirurgia de redução estomacal — que remove até 90% do órgão — foi considerada perigosa demais para o seu estado atual. Para viabilizar o procedimento, ele iniciou o uso de injeções de GLP-1 para reduzir o apetite e perder peso.
Outro ponto alarmante é a dificuldade de diagnóstico por parte dos responsáveis. O pediatra Roberto Berni Canani, da Universidade Federico II, relata que muitos pais não associam o peso ao surgimento de sintomas como tosse, diarreia ou dores estomacais. É o caso de Francesca, de 10 anos e 60 kg, cujos pais buscaram ajuda médica por problemas inflamatórios no esôfago, sem perceber que o peso da filha era um fator determinante.
A erosão dos hábitos alimentares e barreiras estruturais
A transição nutricional na Itália é resumida pelo conceito dos "cinco Ps": pizza, pasta, patate, proteine e pane (pizza, massa, batatas, proteína e pão). O modelo alimentar baseado em grãos integrais, peixes, legumes e azeite de oliva, estudado na década de 1950 por Ancel Keys e Margaret Keys, foi substituído por alimentos ultraprocessados e pratos com alta densidade calórica.
Além da dieta, fatores culturais e estruturais agravam a crise:
- Cultura local: Em Nápoles, existe a percepção equivocada de que crianças com bochechas rosadas e excesso de peso são mais saudáveis.
- Infraestrutura escolar: Muitas escolas funcionam em palácios antigos sem espaços adequados para a educação física moderna, dificultando a atividade física dos alunos.
- Ambiente: A onipresença de tentações alimentares e a tradição familiar de expressar afeto por meio da comida contribuem para a manutenção de hábitos prejudiciais.
Respostas institucionais e novas abordagens terapêuticas
Diante da epidemia global de obesidade, que quadruplicou entre crianças desde 1990, a Itália tornou-se, em 2025, o primeiro país a aprovar uma lei nacional que classifica a obesidade como uma doença crônica, progressiva e reincidente, reconhecendo a influência de fatores biológicos, ambientais e sociais.
Como parte de iniciativas regionais, a Fundação Valter Longo promove oficinas de nutrição para mais de 17 mil alunos em 25 escolas. Paralelamente, a região da Campânia testa a "dieta que imita o jejum", um estudo com 300 adolescentes que consiste em restrições calóricas severas (entre 770 e 1.100 calorias) durante cinco dias a cada três meses para provocar uma reinicialização metabólica.
Apesar da inovação, a abordagem gera controvérsias. O pediatra Roberto Berni Canani alerta que as evidências sobre o jejum em crianças são limitadas e que dietas excessivamente restritivas podem acarretar riscos psicológicos a adolescentes em fase de desenvolvimento da relação com a comida.