Laços afetivos e redes de apoio social são fatores determinantes para a longevidade humana
A manutenção de laços afetivos e redes de apoio social é fator determinante para a longevidade, superando dietas e exercícios. Em regiões como a Península de Nicoya, o ambiente social favorece a vida centenária, enquanto o isolamento social eleva riscos de mortalidade. Governos de países como Espanha, Reino Unido e Japão criaram medidas para combater a solidão
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A manutenção de laços afetivos e redes de apoio social apresenta-se como um fator determinante para a longevidade, superando a influência de dietas ou exercícios físicos. Na Península de Nicoya, na Costa Rica, a presença constante de familiares e vizinhos permite que idosos centenários permaneçam ativos e integrados à comunidade, dissociando a idade cronológica da utilidade social.
O impacto das Zonas Azuis na longevidade
As chamadas zonas azuis são regiões com alta concentração de pessoas longevas, termo cunhado pelos demógrafos Gianni Pes e Michel Poulain e popularizado por Dan Buettner. Além da Península de Nicoya, destacam-se a Sardenha (Itália), Okinawa (Japão), Icária (Grécia) e Loma Linda (Estados Unidos).
Na região da Costa Rica, a longevidade masculina é notável: homens de 60 anos naturais do local possuem sete vezes mais chances de atingir os cem anos do que homens japoneses. Como esse fenômeno não ocorre com quem emigra da região, os dados sugerem que o ambiente social é mais influente que a herança genética.
A Teoria do Comboio e a saúde mental
A psicologia explica esse fenômeno através da "teoria do comboio", de Toni Antonucci. O conceito descreve a vida como um trajeto acompanhado por um grupo de apoio composto por amigos, vizinhos e parentes. Enquanto em sociedades desenvolvidas esse grupo tende a diminuir devido à viuvez e ao distanciamento, na Península de Nicoya o comboio permanece preenchido, com centenários cuidando de bisnetos ou apoiando filhos.
A ciência corrobora a importância dessas conexões. Um estudo da revista Science identificou o isolamento social como um risco primário de morte. Outra meta-análise com 300 mil participantes indicou que a falta de vínculos sociais gera uma mortalidade comparável à do tabagismo, já que a companhia mútua facilita a detecção precoce de doenças e estimula o autocuidado.
O declínio dos vínculos nas sociedades modernas
Em contraste, países do norte da Europa e dos Estados Unidos apresentam laços familiares mais fracos, priorizando o indivíduo sobre o grupo. A Espanha exemplifica essa transição para um modelo de individualização, onde o cuidado com idosos foi transferido para instituições e asilos.
Atualmente, cerca de 2 milhões de idosos vivem sozinhos na Espanha, sendo que 850 mil têm mais de 80 anos — a maioria mulheres. Esse cenário de solidão extrema pode levar ao kodokushi (morte solitária), termo japonês para casos em que o corpo é descoberto apenas semanas ou meses após o óbito. Recentemente, a imprensa espanhola registrou casos semelhantes em Albacete e em um vilarejo de Zamora.
Respostas governamentais ao isolamento
Diante da gravidade do problema, governos de países desenvolvidos passaram a tratar a solidão como uma questão de saúde pública e social, e não apenas individual:
- Espanha: Aprovou em fevereiro deste ano o Marco Estratégico Estatal de Solidões, focando em planejamento urbano e iniciativas intergeracionais.
- Reino Unido: Instituiu um ministério da solidão em 2018.
- Japão: Aprovou, em 2024, uma legislação específica para combater o isolamento.
Essas medidas buscam reverter a tendência de "modernidade líquida", conceito do sociólogo Zygmunt Bauman sobre laços frágeis e efêmeros, promovendo a reconstrução de comunidades que sustentem a população idosa.