Lacuna na formação médica negligencia a transição para a menopausa e a perimenopausa
A falta de formação médica sobre a perimenopausa e a menopausa dificulta o diagnóstico de sintomas que afetam a saúde cardiovascular, mental e óssea. A terapia hormonal é uma opção, exceto para casos de cirrose, trombose espontânea, infarto recente ou câncer de mama ativo
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A transição para a menopausa e a fase anterior, a perimenopausa, frequentemente enfrentam a negligência no sistema de saúde, mesmo impactando a totalidade das mulheres que atingem essa idade. A médica Heather Hirsch, fundadora da Clínica de Menopausa e Meia-Idade da faculdade de medicina de Harvard, aponta que a formação médica tradicional tende a focar na saúde feminina até a gravidez e o parto, deixando as transições hormonais posteriores ausentes dos currículos acadêmicos.
Essa lacuna educacional reflete-se na prática clínica, onde sintomas relatados por mulheres entre 30 e 40 anos raramente são associados à perimenopausa, contrastando com o rigor de protocolos para outras condições, como a mamografia anual para a prevenção do câncer de mama.
Impactos sistêmicos e sintomas invisíveis
A redução dos hormônios reprodutivos durante esse período fragiliza a saúde a longo prazo, afetando múltiplos sistemas do organismo. Além dos sintomas clássicos, a queda do estrogênio — que possui receptores no ouvido interno — pode provocar vertigem, coceira e acufeno (zumbido nos ouvidos).
Existem também alterações silenciosas que comprometem o bem-estar geral, como:
- Elevação da pressão arterial e dos níveis de colesterol;
- Perda de massa muscular e de densidade óssea;
- Instabilidades metabólicas relacionadas à insulina e ao açúcar no sangue, resultando em alterações de peso;
- Comprometimento da integridade dos tecidos urinários e vaginais.
O declínio hormonal repercute ainda na saúde mental, no funcionamento do cérebro, no assoalho pélvico e nos sistemas cardiovascular e gastrointestinal.
Saúde sexual e qualidade de vida
A libido feminina nessa etapa é influenciada por fatores biológicos e contextuais, como o desgaste de relacionamentos longos e a rotina de criação dos filhos. Para mitigar a diminuição do desejo e do conforto sexual, são recomendadas práticas de autoestimulação, o uso de lubrificantes, cuidados com o assoalho pélvico e a aplicação de estrogênio vaginal tópico.
Para mensurar a função sexual, a clínica de Hirsch utiliza o Female Sexual Function Index (Índice de Função Sexual Feminina). O questionário de autoavaliação analisa as últimas quatro semanas da paciente em seis dimensões: satisfação, desejo, excitação, lubrificação, orgasmo e a presença de dor ou desconforto.
Indicações e contraindicações hormonais
Embora a terapia hormonal seja uma opção, ela possui contraindicações rigorosas. O tratamento não é indicado para mulheres com doença hepática em estágio terminal (cirrose), trombose espontânea, ataque cardíaco recente ou câncer de mama ativo ou recente. No entanto, a medicina atual não considera mais o histórico familiar ou pessoal de câncer de mama como um impedimento absoluto para a terapia.