Saúde

Limitações em exames de imagem podem mascarar a infertilidade causada por trompas não funcionais

30 de Julho de 2026 às 06:06

A infertilidade feminina atinge um em cada dez casais, podendo ser causada por disfunções nas trompas que exames de imagem não detectam. Processos inflamatórios podem obstruir o órgão ou comprometer seus cílios, elevando o risco de gravidez ectópica. A fertilização in vitro surge como alternativa para casos irreversíveis, com taxas de sucesso variando conforme a idade da mulher

Limitações em exames de imagem podem mascarar a infertilidade causada por trompas não funcionais
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A infertilidade feminina afeta ao menos um em cada dez casais em idade fértil, exigindo investigações detalhadas sobre a ovulação, o útero e as trompas. Embora frequentemente vistas apenas como canais de passagem, as trompas desempenham funções complexas e essenciais para a concepção, indo muito além de estarem simplesmente "abertas" ou "entupidas".

A função biológica das trompas

O processo reprodutivo depende da engenharia interna desse órgão. Após a relação sexual, os espermatozoides percorrem a cavidade uterina até as trompas. No momento da ovulação, a trompa capta o óvulo liberado pelo ovário, e o encontro entre as células ocorre na transição entre o terço médio e o terço final do órgão.

A fecundação acontece quando um espermatozoide atravessa a barreira do óvulo, iniciando a divisão celular do embrião. Para que a gestação ocorra, o embrião recém-formado precisa de cerca de cinco dias para chegar ao útero. Esse deslocamento é realizado pelos cílios que revestem o interior da trompa, já que nem o óvulo nem o embrião possuem movimento próprio.

Causas de disfunção e riscos de gravidez ectópica

A principal origem do fator tubário na infertilidade são os processos inflamatórios, muitas vezes desencadeados por gonococo e clamídia. A inflamação pode causar a obstrução total do canal, impedindo o encontro do espermatozoide com o óvulo, mas também pode causar danos parciais.

Uma trompa lesionada pode permanecer aberta, porém perder a funcionalidade dos cílios e a capacidade de nutrir o embrião. Esse cenário gera um risco específico: como o espermatozoide é menor, ele consegue atravessar trechos comprometidos e fecundar o óvulo. No entanto, o embrião, por ser maior, pode ficar preso na trompa e se implantar ali, resultando em uma gravidez ectópica, que é inviável.

Limitações do diagnóstico por imagem

Atualmente, não existe aparelho capaz de medir o desempenho funcional da trompa. Exames como a histerossonografia (ultrassom e soro) e a histerossalpingografia (raios X e contraste) informam apenas se o canal está aberto ou fechado.

Embora imagens que mostrem a trompa deslocada, fixa ou com mucosa excessivamente lisa possam levantar suspeitas, elas não confirmam se os cílios funcionam ou se o ambiente interno é adequado. Essa limitação diagnóstica contribui para que cerca de 10% dos casais com exames normais sejam classificados com infertilidade sem causa aparente, quando, na verdade, podem ter trompas abertas, mas não funcionais.

Dados de um estudo de 2024 da Universidade de Medicina de Viena, publicado no Journal of Clinical Medicine com 373 mulheres, indicam que 25% das pacientes tinham ao menos uma trompa obstruída, geralmente na parte próxima ao útero. Menos de 10% apresentavam bloqueio bilateral. Entre os fatores de risco destacados estão os miomas uterinos e a hidrossalpinge (acúmulo de líquido na trompa).

Intervenções cirúrgicas e reprodução assistida

A cirurgia para corrigir trompas doentes apresenta baixas taxas de sucesso. Em metade das videolaparoscopias realizadas sob suspeita de aderências, as trompas não estão efetivamente aderidas. Além disso, a cicatrização pós-operatória pode gerar novas aderências, agravando o quadro e elevando o risco de gestações ectópicas.

A recanalização tubária (reversão de laqueadura) difere desse cenário por atuar em trompas saudáveis que foram interrompidas propositalmente. Já lesões inflamatórias espalham-se por toda a extensão do órgão, tornando o conserto pontual quase impossível, mesmo com microcirurgia ou videolaparoscopia de alta resolução.

Para casos irreversíveis, a fertilização in vitro (FIV) é a alternativa. O procedimento mimetiza a função da trompa em laboratório: a incubadora reproduz a temperatura, enquanto o meio de cultivo imita o pH e a composição química do órgão. O embrião é desenvolvido por cinco dias e transferido diretamente para o útero.

A eficácia da FIV é fortemente influenciada pela idade da mulher:

  • Até 30 anos: chance de gravidez de até 60% por embrião transferido.
  • Aos 35 anos: cerca de 40% de chance.
  • Aos 40 anos: aproximadamente 20% de chance.

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